quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Niemeyer

 

à época em que escrevi (2002) era uma crítica, que hoje sirva como homenagem, e desdizendo o que eu disse, a senilidade deste não apagou o seu brilhantismo, por mais que eu detestasse….

Bizarramente torto. Dos atributos possíveis, este talvez seja dos mais simpáticos que podemos atribuir ao malfadado Caminho Niemeyer, em especial a praça JK. Fruto da esquizofrenia de um arquiteto já senil e do dispendioso hábito pátrio de superfaturar obras públicas, da imiscuidade entre poder público e interesses privados, sintomático da pós - modernidade: o caminho referenda um novo entendimento de mundo - onde a menor distância entre dois pontos nunca será uma reta.

Quem já passou pela praça JK ao meio dia, com o sol a pino, sabe bem do que falo. O sol antes sobreposto as nossas cabeças a uma distância tolerável (lembremo-nos: estamos no Rio) agora paira também sob os pés dos transeuntes. É reflexo para todos os lados. Isto me preocupa, pois no exato momento que escrevo este texto, ouço a conversa de dois biólogos que dizem ao fundo (não para mim, mas o meu intrometimento capta) que Lamarck não estava tão errado como supunha Darwin. Não sei bem o que isto significa, mas a minha imaginação degradada já começa a projetar um futuro catastrófico, onde as gerações próximas de Niterói terão outro padrão de beleza, conformado a partir da quantidade de rugas que o rosto forma quando é franzido. Aquele branco predominante no chão, não me enganam!, é parte de um artifício subjetivo de imposição da ideologia hegemônica: ande torto!! Para não sofrer.

Isto sem falar que o projeto original prevê um passeio que se estende por grande extensão da orla niteroiense. O que significa tratar - se de uma obra feita especialmente para os turistas apreciarem. Não contavam, os idealizadores de tal proeza, com a crônica má educação do povo de Niterói, especialmente dos moradores de rua, que adotaram boa parte do caminho como sua residência permanente, enegrecendo com suas peles o alvo cartão que se embota, não obstante os esforços empreitados pela guarda municipal para evitá-lo. Não sendo o turista um antropólogo ou coisa do gênero, os atrativos da Pça JK se redundam a … nada.

É perceptível o desagrado que é caminhar através da obra pública de cimentos e pedras, típica do nosso maior arquiteto, sem nenhuma sombra natural, sob uma passarela cujo teto vira e mexe carece de novas telhas, teimosia da natureza que venta, inépcia do homem que projeta, deleite do político que orça, sorriso do empreiteiro que recoloca, recoloca, recoloca. Não há um semblante que inspire outro sentimento senão o ódio, este tão renegado e praticado por nós ocidentais numa clara demonstração de uma das nossas mais abnegadas contradições: a distância entre teoria e prática. Já são três as gerações futuras de Niemeyer condenadas coletivamente ao inferno, já ao próprio idealizador qualquer desejo desta ordem é mais uma benção do que maldição.

Alguns podem achar isto que insistentemente escrevo uma implicância imatura de alguém incapaz de entender uma obra de tamanha magnitude preferindo, assim, execrá-la. Falemos então de obras de arte, se me for possível, tratemos disto que o Rio de Janeiro está tão bem servido. Já nascemos, nós fluminenses, com um tino especial para a beleza, dada as riquezas visuais que nos reservam a cidade. Apreciador desta beleza, como tantos outros cariocas, certo dia resolvi fazer uma trilha da Floresta da Tijuca. Objetivo: um bom pico e boas fotos, um visual incomparavelmente belo e peculiar que as alturas auferem as nossas visões. Para um lado a praia da Barra, linda. Ainda mais desta distância onde não é possível mirar os tipos humanos que habitualmente freqüentam este local. Para o outro lado a grande zona oeste, uma imensa baixada se estende até o inatingível pelos olhos, uma paisagem bela se observarmos o contraste entre o recorte topográfico e a urbanização, o cinza contra o verde e marrom. Para lá a Bahia de Guanabara, a ponte e...

e?!!...

... e que ponto é aquele prateado agredindo os olhos? Que coisa monstruosa é esta que destoa completamente de tudo ao redor? Quem o autor de tamanha megalomania?

Lembrei-me da praça JK e de Niemeyer, do PT de Godofredo, do DEM de César Maia, Do Sérgio e dos Cabrais, das guerras em favor das empreiteiras do Eduardo, do FMI e suas recomendações sobre o superávit primário para os países em desenvolvimento, daquela branquidão que cega como um mar de leite (e agora José? Estamos mais doentes do que pensamos), daquela malquista passagem que serve de estacionamento coberto a carros, estes que merecem lugares mais aconchegantes do que nós, efêmeros mortais. Entristeço-me. Tudo parece estar invertido, sem sentido, mas não. A lógica do irracional é cruel e sepulta no homem suas possibilidades de escolhas e intervenção. Faz incompreensível aquilo que não deve ser questionado, sugere-nos um futuro inelutável, o fim da história e dos conflitos, questiona a universalidade das ideologias e é a mais ideóloga e universalizante de todas. Introjeta-se-nos pela TV. Esta lógica me dói. Não poderia aturar calado um monumento que- querendo ou não- representa uma homenagem a isto, do alto do silêncio do pico da Tijuca, gritei.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Bartolomeu e Zeca

Este conto foi escrito há quase dez anos atrás, por duas pessoas: a minha (parte I) e a do sr. Eduardo d`Avila (parte II) ...
 I
Eram cinco da manhã e aquela festinha já tinha acabado, todos saiam daquele salão com uma alegria fácil, barulhenta e expansiva - corriam o risco de acordar os vizinhos! - provocada pelo regaço na cerveja e o excesso de aperitivos que se manifestavam não só pelo vigorosa disposição dos convivas como pelo cheiro ocre que permeava o ambiente. Naquele salão poucos se conheciam realmente, mas neste momento, é possível dizer, todos se amavam ternamente. Abraços efusivos e demorados acompanhados dum “eu te adoro” ou “como a gente não se conheceu antes” são provas cabais disto que digo. Ali, logo no canto, parado ao lado do congelador das bebidas que ainda sobravam, sobressalentes e relegadas pela massa festiva, estávamos nós, eu e Bartolomeu, que talvez fôssemos os dois únicos amigos verdadeiramente legítimos, ou seja, que já tinham uma amizade antes do recorrente fenômeno sobrescrito do etilismo amoroso. A festa tinha acabado, já disse, mas nós dois não fazíamos qualquer movimento no sentido de irmos embora, ao contrário, em silêncio quase torturante, bebíamos enfeitiçados quantas mais pudéssemos, esta era a nossa sina. A bem dizer, aquela movimentação de todos irem - se somente significava a impossibilidade das duas irmãs conseguirem sucesso em seu plano de escapar de suas "solterices", mesmo que para isso fosse necessário organizar uma festa à fantasia. A mal dizer, significava que, naturalmente todos os canhões estavam apontados para nós. Éramos dois, elas duas. Foi quando o silêncio interrompido com um grunhido que se tomou por “vambora” dada as circunstâncias e a atitude de Bartolomeu de levantar a tampa do congelador e sacar de lá de dentro 3 latinhas para cada um, atitude incomum mesmo se tratando da profunda compulsão do adicto em questão, devidamente escondida nos bolsos das calças, fez-nos movimentarmo-nos. Fôramos a festa fantasiados, eu, no auge da minha criatividade, coloquei uma máscara pequena e feia do Batman tomada de empréstimo urgencial de um amigo cujo entendimento em festas do gênero é mínimo, que junto a uma blusa e capa pretas compunham o meu tosco personagem. Bartolomeu, ao contrário, dedicou-se arduamente na composição de seu figurino: um surfista – pescador. No que isto consistia? Não sei bem, mas posso descrevê-lo para vocês. Uma peruca loira escorrida e desgrenhada se escondia por debaixo de um chapéu de palha, a blusa de xadrez e botão semi-aberta acompanhava uma calça jeans “pescando peixe” e por fim uma sandália de dedo finalizava esta atípica e chamativa figura branca de pele, ainda mais se comparado com a média das fantasias, todas muito precárias, onde se destacava um ser que, envolto a um saco preto, sugeria-nos estar de “lixo”. Voltemos ao fim. Saímos sorrateiramente, eu já não tinha minha capa preta do homem morcego e o meu parceiro do crime também não sabia onde estava aquele chapéu de palha, descompostos, descemos as escadas e ao fim desta empreitada já contávamos com uma cerveja a menos, sorvida num longo hausto que permitiu-nos gozar do sabor ainda temperado de uma cerveja, sabemos bem que nesta hora cerva gelada é sempre um privilégio. Foi quando eu brilhantemente, diga-se de passagem, sugeri ao meu amigo a utilização, nos arrebaldes, de marijuana, obviamente que ele não negou como também não aceitou, já não havia condições nem para um ou outro, mas o fato é que estávamos nós sentados entre dois carros menos uma latinha, já sem grandes preocupações com os riscos que envolve uma operação desta, era um fino, nada mais, de um fumo que pegáramos instantes antes de irmos a festa, num morro que encontrava-se no trajeto casa do Bartolomeu – festa. Agora tomaríamos o sentido contrário, rumo a casa de Bartolomeu, já que eu morador de uma área inóspita em Jacarepaguá não contava com conduções/ condições de ir-me para casa. Estávamos lá fumando, pouco se falava, muito sobre as mulheres da festa, A Sabrina, a Vivian, a Rafa e sua mini- blusa de tigresa, a Ju e sua fantasia de coelhinho, a Branca-de-neve, a chapeuzinho vermelho, a enfermeira, a sadô, já se confundia desejo e realidade, infância e puberdade, pouco importava porque nós estávamos era fumando sós. Olhos pequenos, pensamentos desconexos, partimos em direção ao ponto de ônibus no que saberíamos ser uma ingrata espera. Íamos para Jacarepaguá e dali onde estávamos poucos ônibus nos serviriam. O sol nascente e o cansaço fizeram-nos repousar debaixo daquela estrutura de ferro, um tanto inútil pr'aquilo que se propõe, pois se faz sol todos se bronzeiam, se chove se molham, mas útil para tantas outras coisas como encostar a cabeça e tirar um cochilo. Foi o que meu comparsa fez e quinze minutos após esta fisiológica decisão já era possível ver a baba correndo-lhe no canto da boca, sinal de sono profundo, quando ao longe se aproximava um ônibus que a minha miopia e teimosia em usar óculos não me permitia identificar qual. Desta forma, e ao ter certeza que a condução nos servia, busquei acordar o sonado para que pudéssemos ir. Fui muito delicado, com leves cutucões em seu ombro a maior reação do dorminte era virar a cabeça para o outro lado e continuar seus afazeres oníricos. Estava num dilema, tinha que acordá-lo ao mesmo tempo em que deveria fazer sinal para o autocarro parar. Tentei fazer os dois. Cutuca, dois passos a frente sinal, passos atrás, ei, cutuca, passos a frente, sinal, passos... o ônibus passou, ele não acordou, me emputeci. Tomei a decisão de não deixá-lo dormir mais, não foi por birra, mas eu queria muito poder descansar também, não num ponto de ônibus conforme a opção de outrem, mas no seu devido lugar. Entre a decisão tomada e a execução do ato, há uma grande distância que só pôde ser minimizada com alguns bicos na boca do estômago, para susto daqueles que a esta hora se alojavam no ponto rumo a seus trabalhos e viam um Batman ensandecido espancar um sonâmbulo esdrúxulo. Ele não acordou, se esta palavra for tomada ao pé da letra, mas o seu corpo em movimento possibilitou-nos adentrar num ônibus 269, pagar a passagem e desabar num banco, cada um num, que com o espaço de um lugar vazio ao lado e o sacolejo de uma serra, fez-nos adormecer a ambos, sonhei. Freada brusca, guinada da cabeça, olhos entreabertos, onde estamos? Reconhecimento da área...ops, Bartolomeu! Passamos do ponto!! Já o ônibus ia arrancando, sacudi o ombro do meu anfitrião com uma força descomunal, dei o sinal de parada, Bartolomeu abriu os olhos, eu disse, novamente: “Passamos do ponto”, o ônibus parou, ele balançou a cabeça, não sei se por concordar ou se por Newton, mas eu fui andando em direção a porta de saída, desci a escada e esperei-o , o ônibus fechou a porta, arrancou e foi-se embora. Estava na rua sozinho e com sono, sem ter bem para onde ir e antes que fosse tomado pelo desespero, pus-me a caminhar em direção a casa do meu amigo que, eu já sabia disso, sempre permanecia de portas abertas. Chegando lá encontrei o seu irmão Murilo indo beber água num daqueles interregnos que a sede provoca no sono, sempre benévolo, ele me perguntou onde estava o Bartolomeu, e eu, meio grogue respondi que tinha ficado no ônibus, ele então me olhou com uma santa complacência, desta que só os homens superiores conseguem ter por uma figura degradada por opção própria, e disse-me para eu deitar naquele alvo lençol macio e cheiroso, propício a um sono acumulado, pronto para ser encharcado pelos eflúvios e secreções que um corpo exala, mesmo em baixo metabolismo, quando se vai dormir às 8 da manhã com um sol de verão no rio. Tirei meus sapatos e blusa, a calça não, as meias uma , estiquei-me no colchão e adormeci... Parecia sonhar com uma gritaria, uma balbúrdia se formava no pano de fundo do meu devaneio, interrompido por um copo de água na cara e bicos no tronco, fui despertado pelo surfista pescador, de face rubra e veias estufadas no pescoço que vociferava contra a minha pessoa palavras de ingratidão e desbunde, que esquecia de todo o cuidado que tive com ele, desde a cachoeira babal até o ponto em que saltei onde busquei despertá-lo de sua maldição. Quem mandou dormir como pedra? Mas meus argumentos não bastavam para conter a fúria descomensurada que o excesso de cerveja e umas voltinhas em Jacarepaguá provocava naquela pessoa. Seu irmão, em sua santa paciência, tentava demovê-lo da idéia de me matar e, pouco a pouco, ele foi se acalmando, enquanto me expulsava de sua cama e eu calçava os sapatos, um pé com meia o outro sem, vestindo a blusa do lado inverso, arrebentando aquele elástico vagaba da máscara de Batman, e pondo-me sorrateiramente para fora do quarto, atravessando a sala, indo a cozinha, ouvindo algumas injustas palavras sobre mim que o barulho da rua abafava. Nem fechei a porta, pus-me a andar sob aquele sol carioca, mais sofrível ainda quando se veste preto, que a incompreensão de meu amigo tinha me obrigado a enfrentar.
 II
 Lembro-me de, em fragmentos, ter adentrado o carro que nos conduziria para nossa área. Na realidade, estávamos a caminho da minha casa, pois Zeca não teria condições de viajar naquela manhã. O sono oriundo de psicotrópicos em demasia e acúmulo de horas acordado realmente prevaleceu no momento de saltar do ônibus. Ora!! O que fez então o nobre cidadão amigo? (ainda bem que meus inimigos não precisam dormir lá em casa!!!) Pois o que fez foi digno de um grande vacilão, não é mesmo? Não demoraram dez segundos para ele acompanhar o trajeto do ônibus, já do lado de fora, rumando para seu ponto final em Curicica. Sem marcar toca, pois é malandro como poucos, pôs-se a andar em direção ao conjunto habitacional, calculando de prontidão que portão e porta de minha residência permanecem abertas 24 horas por dia (não liguem, ainda não fomos assaltados). O que o levou de encontro ao meu bondoso irmão que, diga-se de passagem, fez questão de convocá-lo pra se deitar em MINHA cama. O zumbi agradeceu a compreensão do jovem que saía cedo, e desmaiou. Enquanto isto, em Curicica... O calor insuportável daquela manhã me permitiu intuir a gravidade da situação. Onde estou? Onde está o...? Sem conseguir liquidar a questão de pronto, ainda bastante sonolento, desci do veículo e iniciei o reconhecimento geográfico. Eis que percebo-me no fim da linha; aliás, “linha” esta já perdida por nós naquela longínqua festa à fantasia. Diversas pessoas indo trabalhar, funcionários tipicamente uniformizados me olhavam com um olhar ao mesmo tempo repressor e invejoso porque, de fato, me pus a tirar um cochilo numa agradável sombrinha. Recobrei consciência mais segura não sei quanto tempo depois - as unidades de tempo confundiam-se àquela altura – e minutos ou horas adiante, indevida e ligeiramente descansado, ultrapassei os limites da leseira sem precedentes para, mesmo sem dinheiro no bolso, adentrar novamente a mesma condução (269 Curicica-Praça XV). Chegando em casa... Peço perdão aos mais frescos, não acostumados ao uso da violência em casos extremos, (porém sempre com conhecidos, lógico!), o que ocorreu foi um acesso de raiva e, sobretudo, “coisa de bêbado” minha para com Zeca Urubu!! O passeio de volta ao lar me pareceu tranquilo, mas ainda me indagava incessantemente sobre o sumiço do amigo. O que teria acontecido? Será que ele foi para casa? Sabia não ser possível, seu recanto de moradia era realmente num canto, e por re-canto contem mais e mais cantos para lá se chegar, pois seu “sítio” ficava numa área arborizada cujo ar puro nos lembra Lumiar ou Friburgo. Morava numa área mais rural do que a que estamos habituados. Mas não, estive certo que não teria tido condições de seguir viagem ao seu logradouro. Que diabos!! O que aconteceu, afinal? Ao entrar em casa, logo na cozinha, meu parente termina seu café e prepara-se para seus afazeres matutinos quando, ingenuamente, noticia-me “O teu amigo está dormindo aqui em casa”. Mas....como... pera aí, e continuou para mim “Disse que você tava no ônibus e...”, ignorei o resto e fui correndo de encontro ao salafrário. Estava bastante incomodado com o fato de ter dormido num ponto em Curicica, para chegar no meu quarto e vislumbrar, babando em meu travesseiro e envolto em meus lençóis limpos, Zeca Urubu etilicamente desacordado!! Que filho da puta, óbvio, pensei na mesma hora!! Certo de que já estava bastante descansado, resolvi então cobrir-lhe de porrada, com socos e puxões até que saísse imediatamente de cima da cama. Quer dizer que você saltou no ponto da minha casa e, paralisado por encontrar-se só, decidiu cabalmente dormir lá mesmo, sem minha presença? Não passou pela sua cabeça bater no corpo do ônibus, alardar ao retrovisor o motorista? Não!! sem um leve pesar, o calhorda simplesmente ignorou o destino do amigo. Enfim, brutalizado, o safado acordou com cara de espanto e, sem dizer nada, saiu saindo na hora. Não fosse por sua persona intelectualmente pseudo-comunista e libertária, e sabendo que, por ser aberta ao público, minha casa realmente nos incute a romper os padrões citadinos de “privacidade”, ficaria puto com ele um pouco mais do que uns vinte minutos. Ao fim do choque não recordo-me de mais nada a não ser verificar, tristemente, que já havia dormido o bastante para que pudesse descansar mais. No mais, consciente de que nada de grave, mas sim tragicômico, ocorrera naquela noite/manhã, estive certo de que esse episódio continha potencial cômico suficiente para um dia compor páginas em forma de conto. Ao longo dos anos, sequelamente, não mais associava à referida festa esta manhã sonolenta, mas sempre recordávamos a tosca historinha. Pois está agora, finalmente, configurada em um conto a quatro mãos.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Do ciclo da limpeza- ou a dialética do pano de chão.

Ter me tornado “dono da casa” após os trintas tem lá as suas vicissitudes mas tem também as suas benesses. Aquilo que, para alguém que foi criado sob a lógica dos afazeres domésticos desde o mais cedo silabar até a sua chegada a maturidade, tem certamente- com estes afazeres - uma naturalização e naturalidade que não é típico daqueles que, como o meu caso, foram lançados em meio a “imundice” produzida pela síntese do despreparo cultural e social e com a compulsão – completamente descartável e amontoadora – sobre produtos que de nada servem além de nos suscitar uma passividade que nada arruma, “imundice” esta que pode ser denominar o caos que é a nossa própria existência de homem solteiro aos trinta anos.

E isso acarreta, para aqueles que tardiamente se tornaram “donos de casa” uma racionalização sobre os processos a fim de apreendê-los por completo. Descobrir a complexidade que é lavar um simples chão de cozinha, ver complexidade naquilo que parece simples, é algo que só mesmo esta adaptação abrupta permite reparar.

Encerrando as divagações, vamos aos fatos, estes que são a fonte das ilustrações caricatas que são as teorizações. Decerto que me perguntas: mas que mistério tem, lamarão, em lavar a porra de um chão? Que de tão formulado e refinado tem em buscar-se uma vassoura que varre e um pano que limpa, e aplicar-lhes ao chão, com os devidos produtos, cada qual em seu tempo? Nenhum mistério ... e esta seria a resposta useira.

Depende, responderia eu, com cara de professor de história metido a filósofo, que se põe a indagar o óbvio e dele extrair afirmativas que Raul Seixas duvidaria, tamanha a inventividade. E com cara de convicção, reitero, depende sim. Afinal se você for uma leitora, os imperativos sociais já te estimularam a, um milhão de vezes, incutir em si tal processo, que o tens como natural, isso, muito provavelmente, se a história de cada uma em particular dialogar com o modus operandis da sociedade machista. Mas se pelo contrário, tiveste o azar de, como eu, nascer homem e um tanto mais imbecil do que as demais, verás que lavar o chão envolve uma lógica pra lá de aristotélica, pós-hegeliana, diria.

Isso porque falo tão somente de lavar um chão de cozinha, desconsiderando toda a série de atividades que compreende os afazeres domésticos que vão desde fazer a comida, como varrer o teto- sim o teto!- passando por deixar as janelas limpas e as roupas passadas, contando tão e exclusivamente consigo próprio como aliado e- por vezes infortunas- outro tanto de pessoas como adversários nesta empreitada, mormente chamadas de: família.

Mas voltemos pro chão, pois de lá que começamos tudo.

Pois o primeiro fator a ponderar é, qual o tipo de limpeza que se quer no chão da cozinha, se é a limpeza superficial ou a limpeza profunda. Se for a primeira- (sim, opto pela primeira para encurtar já alongado texto), primeiro deve-se varrer o ambiente alvo-inimigo. Posteriormente, preparar um balde com desinfetante e um pano que não esteja sujo, feito isso, aplique o pano no chão, após aplicar o pano úmido, aplique um pano seco a fim de diminuir o tempo de secagem e inviabilizar por um dia uma simples ida a cozinha sem um pé-preto-desperta-neura no meio do piso de cerâmica. Este, aliás, que vc deve torcer pra ser bege, porque se for branco, multiplica todo este esforço por dez. Simples? Não, pois não acabou, terminado todo este processo agora é necessário o caminho dialético da limpeza, ou seja, limpar aquilo que usaste justamente para limpar: daí que se faz necessário lavar o pano (sério, faça na hora, nada mais prático na vida do lar do que arrumar enquanto faz), tanto o seco- que óbvio não está mais seco- quanto o molhado, lavar a pá, desempoeirar a vassoura, limpar o balde e feito tudo isso, vc tem findo o seu simples processo, sem contar que o lixo que varreste deve ser posto no lixo e que este lixo remetido a lixeira. Mas essa técnica superficial tem o inconveniente de não lavar debaixo da geladeira e do fogão com a mesma eficácia. Para tanto seria necessário a técnica do balde com sabão e arrasta eletrodomésticos, acho eu, deixemos esta para outra oportunidade.

Por fim, limpado o que usamos pra limpar, nada mais justo do que aprofundarmos este processo e, ato contínuo, tomarmos um banho com vistas a higienizar o próprio corpo. Mas, estou propenso a crer que o homem que limpa o próprio chão, o faz dando um banho na sua própria alma, pois muito mais eficaz do que mil palavras retóricas, põe em prática uma importante lição de combate ao machismo. Este simples ser pode nem perceber, mas é, por vezes, muito mais feminista do que aqueles que com palavras bonitas floreiam os seus gestos inférteis, pois ocos de autotransformação. Estes, não tomam para si como importante a tarefa de lavarem o seu próprio chão.

sábado, 6 de outubro de 2012

Sobre as eleições

Amanhã (07-10-2012) é dia de eleição e neste sentido gostaria de tornar público algumas preferências políticas, com as escusas de assim intrometer-me em seu momento de divertimento.

Aos que me conhecem mais a fundo (ou há mais tempo) sabem que sempre busquei participar dos movimentos coletivos e sociais que denunciando sejam demandas específicas seja a estrutura socioeconômica produtora de contradições insuperáveis no âmbito do capitalismo: como a produção massiva de riquezas e sua extrema concentração na mão de poucos, o que gera um cenário- no mínimo lastimável- onde contingentes inteiros de populações vivem abaixo das condições de sobrevivência ao passo que minorias dos países centrais detém parcelas vultuosas desta riqueza. Sabem também da minha “opinião radical” no sentido de desacreditar nas propostas que visam amenizar as contradições sociais através de reformas e uma maior distribuição de renda que possibilitaria em um modo de vida mais confortável a todos. Desacredito desta hipótese por um simples motivo. A principal forma de produção do lucro é a exploração sobre o trabalhador e, assim sendo, por mais que curtas épocas históricas possam propiciar reformas que apontem para um Estado de Bem Estar Social é só a taxa média de lucro do capital apontar para o decréscimo que as forças políticas que o representa  (o capital)- em suas diversas formas- irão engrossar o coro que estimula a destruição de direitos sociais em prol do achatamento dos salários (este que compõe o principal fator de custos na produção de mercadorias).

Neste sentido, queria reafirmar um caráter contraditório destas eleições. Tenho plena concordância com a ideia de que não são as eleições burguesas- marcadas pela presença da influência do grande capital organizado que financia candidaturas, os meios de comunicação, que privilegia determinados candidatos em detrimento a outros, as regras eleitorais que beneficiam os partidos oligárquica e historicamente constituídos do Brasil, entre tantas outras coisas para que possamos sair do aposto- não serão estas as eleições que possibilitarão as mudanças necessárias para uma profunda mudança social. Contudo, não creio que estas eleições não cumpram nenhuma função. Grosso modo, podemos dizer que estas eleições podem contribuir para uma modificação da correlação de forças entre a burguesia e os trabalhadores, em favor de ambos os lados e, por isso minha opção de votar- não em meras pessoas- mas em projetos políticos que melhor representem as demandas da classe trabalhadora organizada e rechaçando as propostas dos demais que contribuem para a reafirmação do poder burguês. Mas, principalmente, cabe a afirmativa que esta construção se dá, mais do que nas eleições, no dia – a – dia.

Com tudo isto, quero publicizar o meu voto no PSOL- Partido Socialismo e Liberdade- partido no qual sou militante e busco construir e fortalecer como instrumento construtor do socialismo- como também poderia fazê-lo em favor de outras forças que constroem conosco uma nova ordem social, como o PSTU ou o PCB. Nem sempre estes partidos estarão organizados em seu município por um motivo bastante claro: como são instrumentos da classe trabalhadora que contestam a Ordem social, estes partidos não gozam da simpatia (entenda-se apoio de toda e qualquer sorte) da burguesia. São financiados e mantidos pela classe trabalhadora, trazendo consigo a sorte o azar disso e o maior azar é a crônica falta de recursos, compensados pela militância política dos que- sonhando acordados- organizam-se e agem.

Estes partidos estão na luta a fim de construir (1) condições melhores de vida para a classe trabalhadora, buscando dar freio ao ímpeto voraz do capital, ao mesmo tempo que (2) buscam organizar o movimento da classe trabalhadora e, com isto, aprofundar um projeto político que viabilize a tão almejada – por nós certamente e ao menos - transformação socialista.

Para finalizar, queria dizer que nestas eleições municipais:

No Rio de Janeiro eu apoio e construo a candidatura de Marcelo Freixo – 50 e, para vereador, Renato Cinco 50555.

Em Niterói, apoio e construo a candidatura de Flávio Serafini- 50 e, para vereador, Paulo Eduardo Gomes, o PEG, 50001.

Em São Gonçalo, indico o voto no Josemar- 50 e para vereador, voto em legenda, 50.

Em Itaboraí, onde trabalho, milito e construí muitos amigos, indico a candidatura de Lourdes Monteiro 50, para prefeita, e Ronei Carvalho 50500, para vereador.

Pois, para estas pessoas, como para mim, a luta é diária!

terça-feira, 17 de julho de 2012

Mal vá do jeito (que chegou).

Mal

Mal de mim

Mal de mais

Mal de menos

Mal dá de muito

Mal dá na cara

Mal dá definitivamente

Mal dá desespero

maldade mata

 

Para tanto

Bondade não é suficiente

Há que se ser solidário

E igualdade entre a gente

Não mais solitário

Ter-se a assunção inteligente

De que só, sou um a menos.

 

Radical

Só o nosso individualismo

Que nos torna tão igual

Neste imenso pluralismo

De corpos vazios de conteúdo

E se com isso tudo, fico mudo

Isso me faz radicalmente mal

 

Mal demais

Mal de mim

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Não somos irmãos

 

Ao Dromedário que se diz irmão

 

Cal na alma calma

Inquisidora da alma inquieta

Soletra teu sono, nós não somos

Tão pouco tampa o vazio.

 

Disso merecemos menos

Somos sendo, sem dó

Afirmamos e amamos, tão só

 

Larga a minha mão, viu

Sou frágil e senil

Não mereço o teu carinho

Não sou sutil, não sou sutil

 

E do meu amor eu faço um ninho

E no meu egoísmo , eu sonho

Faço do amor besta, música

E com tua inveja, eu proponho

Que seja bastante feliz

Em nossos desejos de meretriz

esta será tua grande conquista

na ode do teu amor individualista

descartável e de imediatez

há um limite no teu sentir burguês.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

rascunho

 

 

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg2-VdgpGcmNt-SylTUEsfuZ-F7PbLckBQQY3ZbxXBhyZyFSUjhp3cQtcue-vkveMQyW2RTMIKAhHe7dxQ_n8KFNpALhzrgdWEmelC2IjceRoauo54wGnFefcUkiDpk1bGFdGvxDMU8X24/s1600/299848_270513872982014_100000702107752_934486_1268239467_n.jpgNós, educadores que nos opomos acerca do projeto “PMS na escola”, nominados como pessoas que “tem de ser contra algo” ou de desconhecermos a realidade e o entorno das escolas públicas achamos necessário fazer público e de forma didática os motivos pelo qual somos veemente contra o projeto, para assim obter o pleno entendimento das nossas razões pela população bem como o entendimento de Vossa Excelência que, por falta de esclarecimento ou má-fé, se utiliza da grande mídia para proliferar calúnias com vista única a defender o projeto da secretaria de sua responsabilidade.

Um primeiro ponto que muito nos espanta é o tremendo esforço que tem empreendido o secretário, fazendo uso da imprensa chapa branca e da grande mídia para refutar a tese de “alguns poucos”. Usar de tão grande instrumento para calar a “calúnia de alguns poucos” não nos parece uma ação que tenha coerência. Se calúnia fosse, não se sustentaria por muito tempo, cabendo aos fatos, por si só, porem abaixo a validade de qualquer crítica sem substancia. Se alguns poucos fossem, não precisaria de tamanha força. Não se usa bala de canhão para matar formigas, todos sabemos. O que subiste disto é diferente: ou o temor de termos razão, ou o temor de sermos mais do que alguns poucos, ou pior, serem ambos os temores confirmados.

Primeiro dado importante: não podemos tratar a violência de forma técnica e tão somente imediata, o pedido por maior segurança nas escolas públicas tem como solução a contratação de mais funcionários técnico-administrativos e de apoio, corpo este designado e com o devido conhecimento especifico para o exercício da função de inspetoria e portaria, bem como pela oferta, por parte do Estado, de formação continuada para estes profissionais. É importante notar que, atualmente, os funcionários que exercem estas funções nas escolas do Estado são em sua maioria precarizados pela terceirização, substituídos com a constância mercadológica, não capacitados e nem valorizados para tanto. O uso de policiais, que não tem formação para tanto (e quando dizemos formação não estamos falando de um curso de adaptação, estamos falando de conhecimentos legislativos acerca do ECA, de conhecimentos pedagógicos, etc.), que trabalharão no seu contraturno, em período que seria de descanso. Nos dois casos, na área da educação e da segurança, a lógica é a mesma, chama-se de valorização o que na realidade é aumento da carga de trabalho e manutenção de rendimentos baixíssimos. Importante dizer que o governo que Vossa Excelência participa é o que menos gasta com seus servidores no Brasil.

Não podemos acreditar que a causa da violência seja tão somente a ignorância e a má-educação do povo, ela é fruto da profunda desigualdade social e, pior, da forma como historicamente se tem tratado a coisa pública no Brasil. Este país é uma república de muitos Cavendishs e Cachoeiras, que o diga o representante máximo do poder executivo do nosso Estado. Quem rouba de forma mais corriqueira os objetos de informática da Escola Pública, os meliantes que a invadem ou os governantes que fazem contratos escusos com empresas amigas pagando pelo aluguel mensal de computadores quase o equivalente ao seu preço de compra?

O que nos assusta muito é exatamente a palavra “preventiva”, sempre usada para atirar contra a juventude negra e pobre, esta que muito frequenta a escola pública. Foi também a palavra preventiva que justificou o uso de meios ilícitos (como grampos telefônicos) contra parlamentares da oposição e lideranças do movimento sindical, vide os bombeiros. Foi preventiva a ação da polícia contra os que marchavam pacificamente e propunham o debate da legalização da maconha. Também preventiva foi a ação da polícia paulista na reintegração de posse de Pinheirinhos. Daí que se concluí que “prevenção” para os governantes e seus coligados na sociedade civil é a palavra que “legitima” a ação truculenta da policia contra os movimentos sociais e contra a juventude pobre e negra. Usa-se um clamor popular latente da segurança das escolas para lançar mão dos mesmos velhos mecanismos de perpetuação da ordem. Em um ponto concordamos, o policial não cumpre um papel pedagógico, só que acreditamos, profundamente, que a escola é um lugar exclusivamente pedagógico o que nos leva a concluir que o lugar da policia não é na escola pública, a não ser que sejam alunos e se comportem como tal. Por fim, senhor secretário, passado 80 anos o senhor repete a receita dos presidentes da velha república ao tratarem, erroneamente, a questão social como um caso de polícia.

terça-feira, 24 de abril de 2012

MSN (ou Meu Saco Novo)


( Ana Alvarez/ MVML)


Encha de tesão o saco vazio.
Pois eu vou arranjar uns versos do nada.
pra cantar sentado ao meio fio...
sem pensar em rimas ou métricas
este é apenas um desafio
que eu não temo pelo ridículo
por não cumprir os tratos da estética,
mas eu temo ter que sentir frio
neste cubículo mal arejado
que tua cabeça pousa em carinho
quando tu pões teu corpo ao meu lado.
Sim eu sei meu bem , estamos sozinhos
E não há mesmo ninguém preocupado
Pois cada um sente seu próprio temor com frio
E no frio permanecem, acomodados
Mas somos obstinados
Essa é uma grande realidade!
E meia dúzia de versos mal delineados
Não quebram nossa imensa individualidade
Inda mais agora com esta tal virtualidade,
quanta maldade, quanta maldade!
sentimentos transformados em pílulas,
palavras postadas que exprimem felicidade,
quanta beleza conseguimos forjar,
Nesta imensa distancia entre eu e você
e assim fico sem dizer e vc sem entender,
a grande desordem em que se faz a linguagem
eu não te amo mas te quero.
Eu te amo mas não te quero
Eu não te chamo, eu berro
Eu clamo, eu erro.
Eu clamo, eu erro.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Do vazio.

O vazio que provocamos

É impossível por outro de se preencher

Pois é do nosso tamanho

Formato certo

Inincaixável em outro ser.

E se queres suprir meu vazio com outro

Então nem tente, te poupo

Pois no nosso espaço, te digo

Somente cabe eu em você.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Pinheirinho viverá!

É sempre a mesma lógica. Desde muito, no Brasil, a questão social é tratada como caso de polícia, embora esta frase só tenha sido dita no quartel final da década de 1920, esta lógica perdura desde muito antes. Contudo, ela tem muitas sutilezas e a mais evidente é o fato de que quanto mais urgente e sério for o problema a ser enfrentado e radical a solução apresentada, maior é a força com a qual o estado reage. Esta lógica de “dar exemplo pelo medo” leva a uma falsa conclusão: a de que intimidados, nos calaremos. Ledo engano. Enquanto houver injustiça, haverá quem se indigne. O ser humano, embora não tenha praticado costumeiramente e com correção, não desaprendeu a amar.
Importante notar que o que aconteceu em Pinheirinho- e no momento que escrevo o faço no calor dos acontecimentos, onde as informações permanecem truncadas e imprecisas, pois a política de desinformação faz parte da estratégia militar: negligenciam dados, somem pessoas, roubam registros feitos pelos celulares dos moradores e só permitem a entrada de uma única emissora (qual?)- estes tristes acontecimentos, relembro, não são um fato isolado na história brasileira. Fazem parte de um vasto legado de injustiça, truculência, imoralidade rotineiros no Brasil, que buscam aniquilar o dado animador desta crônica: (h)a luta. Lembremos de Eldorados dos Carajás e o massacre de Corumbiara, veremos traços interessantes de mórbida semelhança: primeiro a covardia com que são tratados os trabalhadores que lutam. Contra pedras, granadas; contra paus, pistolas; contra a esperança o exagero; contra o desespero, a psicopatia. Contra trabalhadores, idoso e crianças, um exército de 2000 mil homens.  Outra semelhança: os compromissos firmados não foram cumpridos, tanto em Pinheirinho como em Corumbiara e em Carajás os governos não mantiveram a sua palavra. E esta é uma lição que devemos ter clara, que qualquer acordo tênue que o movimento social faz com o estado, não pode representar um afrouxamento da nossa vigilância, principalmente nestes casos, onde o uso da força é iminente. Outra característica é a clareza como o “desfazer dos vestígios” é uma preocupação que antecede a ação militar. Em Corumbiara, até hoje, sobreviventes do massacre são perseguidos e ameaçados. Em Pinheirinho, a polícia andava com luvas a fim de evitar vestígio de pólvora do crime que cometiam. E embora as imagens desmentissem, as autoridades insistem em dizer que não usaram armas letais. Ademais o movimento social e a imprensa, mesmo a burguesa, não foram autorizadas a se aproximarem do local, que permanece sitiado, dando tempo a força policial para desfazer as “cenas do crime”.
Mas é necessário falar do papel que a grande imprensa tem em todo este processo. Desde o princípio quando nos bombardeia de informação que associa claramente a pobreza à criminalidade: a matéria transmitida no Fantástico do dia do massacre faz confundir Pinheirinho com uma tão somente grande Crackolândia. Criminalizam a pobreza e, com isso, preparam a opinião pública para a legitimidade de toda e qualquer barbaridade. Omitem informações e selecionam o que irão dizer, usam um vocabulário próprio onde associa a luta com baderna e a reivindicações por direitos com a desordem. Desta maneira, a opinião geral das pessoas acaba dando mais valor a Yorkshires ou a Luísas e sua viagens ao Canadá do que as profundas injustiças lá acometidas. Contudo, também claro pra todos nós, é o papel que as redes sociais - mesmo em toda sua limitação e nunca prescindindo da pressão politica das ruas, das praças, das barricadas e dos molotovs da vida – pode cumprir ao fazer circular informações. Alguns críticos desta tese dizem que, nas redes sociais, não se pode averiguar a fidedignidade da informação. Nada mais certo do que isso. Só importante lembrar que esta característica não é exclusiva das mídias digitais. Aproveito e mando minha lembrança a estes críticos e outra, em especial, para a revista Veja. A ironia também é crítica.
Mas tal e qual o Eldorado dos Carajás e Corumbiara ficaram marcadas como um importante símbolo da luta camponesa no Brasil e proveu o MST de mártires reais, assim será com Pinheirinho. O MST não parou. O MTST também não vai parar. Ao Contrário, deu ao Brasil, hoje, um grande exemplo com este incomensurável ato de coragem. Assim, todas as coisas ficaram sem tamanho. A tristeza, a indignação e a revolta. Mas também a esperança. As atitudes e o exemplo se tornam imensos; as palavras, pequeníssimas. Desta forma, texto qualquer dará conta de preencher de pleno significado estes acontecimentos. As palavras- elas, sempre elas- se tornam inúteis num momento como este: pois não conseguem cumprir com o simples desígnio da sua existência. 
Termino este registro, portanto, dando-lhe a única utilidade que ele poderia ter: a de ser uma homenagem.

Camponeses dos Eldorado do Carajás, presente! Camponeses de Corumbiara, presente! Trabalhadores da CSN - Volta Redonda, presente! Meninos de rua da Candelária, presente! Presidiários do Carandiru, presente! Moradores de Vigário Geral, presente! Moradores do Complexo do Alemão, presente! Moradores de Nova Iguaçu, presente!

Pinheirinho vive.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Post fabulum


Crõnica escrita no dia 30-04-2007.

Poderia ser uma raposa, era um senhor. O outro - criança de apartamento, enleve-se a ingenuidade e pureza, portanto - seria um cordeiro. Poderíamos ter um castelo, seus lagos e vales, uma ponte, muitos arbustos, um passado verde e desumano, mitos, Deus, distâncias físicas, animais falantes, monstros e bruxas, mais Deuses enfim. Mas ali era só um lugar humano, demasiadamente humano, em um prédio gradeado, filmado, guardado e armado ao pé do morro, cercado por comunidades beligerantes, individualizado em pequenos cubículos que se amontoavam em 6 blocos de apartamentos, 2 ou 3 quartos, quadras e piscinas, suas churrasqueiras e área ampla de lazer, coberturas panorâmicas, falta agora informar-lhes o preço e condições de pagamento que ao menos um objetivo este texto terá atingido, com agradecimentos da imobiliária. Mas o que nos importa é que naquilo havia um universo próprio, pois. Poderia ser muito, mas era isso o tudo, as fábulas se constroem de acordo com seu tempo.
Poderia ser uma raposa, já foi dito. Mas deveras fantástico eram aqueles menino e velho, guardadores de uma relação pouco comum contemporaneamente: afeto. Ele, mais idoso, era guardião do playground, palavra que define em um estrangeirismo grunhido aquela área comum que os pivetes de tenra idade, logo ao raiar do dia, já ocupavam com seus gritantes e lúdicos mundos, com suas bicicletas e bolas de variados tamanhos e cores. Seu Oscar- este o nome do ancião- era desses que guardava muito prazer por pouco tempo de prosa. E o menino, daqueles que adoravam as histórias, estejam nos livros ou mesmo no cotidiano, tinha dois olhos e dois ouvidos mais uma boca como todos nós - que em geral não nos apercebemos do fato - e por isso interessava-lhe muito mais ver e ouvir do que propriamente falar. Seu Oscar já beirava os 80 anos, tendo, portanto, ouvido e visto muito mais por este longo tempo de curtos anos, sua vida, restava-lhe agora, no fim, o desejo mais que compreensível de falar sem medidas. O assunto predileto era o futebol, debate que, não interessa a idade, sempre preenche as lacunas da comunicação masculina, ainda mais quando os interlocutores torcem para o mesmo time, era o caso.
Enquanto não se organizavam os times de futebol com bola de espuma, não se iniciava o pique esconde com walk talk, a polícia e ladrão com pistola de ar, a corrida - maluca com bicicletas - adventos da nossa sociedade cruel que através da tecnologia potencializa nos espíritos o que há de mais sádico e transforma as antigas brincadeiras de grupo em rituais irreconhecíveis e ao mesmo tempo prolifera os jogos de guerra para crianças, elas ganham ponto ao matarem o inimigo, pode ser um outro soldado ou mesmo um civìl, coitado, andando na rua - enquanto isso não acontecia, ele ia para aquele canto do play onde ouvia demoradamente as histórias de seu Oscar, muitas sobre o seu sobrinho que jogara futebol profissionalmente, algumas outras sobre a atualidade do time tricolor daquela cidade, discutiam arduamente quando seu Oscar expunha sua tese racista sobre vitórias e a proporção de negros no time, não é necessário dizer que seu Oscar era racista, dada a sua idade e a sociedade conturbada em que vivemos (que nega a suas origens como forma instantânea de apreender a auto-negação da vida), por mais que isso em última instância não fosse culpa sua, mais disto cujo nome civilização nos adorna e introjeta-se-nos, valores que não são nossos, palavras que ficam feias em nossa boca porque foram pensadas por outros em prol deles mesmos, coisas da ideologia dominante. Incrivelmente, não era comum o sr. reclamar das dores oriundas da idade para este menino, ou da falta de visão que lhe fazia confundir feições, ou da perda de audição, pois que gritava ao falar, estes assuntos, muito caros aos idosos, só se dão, se bem observar você, quando os matutos ancestrais não são instigados a falar de suas memórias, coisa que de tão ampla e rica, guardam em si o que há de mais legitimo no pensar humano que é a profusão de sonhos e vontades amalgamando-se a isto que chamamos de razão. Sim, tese. Também não era comum ao menino outra coisa que a paciência pois, incrivelmente - como tudo que há de não crível nesta fábula sem bichos afora a raposa e o cordeiro, que já foram - na nossa transviada sociedade, quanto mais tempo temos para nós, mais impaciente ficamos. Sentava-se ali, ao sopé da cadeira do vigia e aguardava aquelas doces palavras de sua voz que em dado momento soava como música, dançava pelo ar, voz doce e cansada de uma vida de duras penas, não fosse assim não seria vigia aos oitenta anos, deixando de ter somente sentindo sintático, mas ganhando em profundidade e melodia - quem nunca sentiu uma voz que fizesse cosquinha nos tímpanos? E ia-se pelas histórias, a se perder em memórias que emergiam, submergiam, se confundiam, trocavam de cores e sons, mas eram. E eram com um peso tamanho que até gozavam de prova: com a ajuda de uma seção a qual falava sobre as notícias de 50 anos atrás, mostrava ao rapazote os resultados dos jogos de antanho. Óbvio que isto cresceu na cabeça deste moleque, tão acostumado a um futebol de poucos espaços, muitas marcação e seres superdotados fisicamente com o que a medicina desportiva pode oferecer de mais inova - dor. 12x8, 7x4, 5x5, 11x3, o futebol não é mais o mesmo. Nostálgico, acusar-lhe-iam alguns, conquanto não seja palavra própria, pois não fora vivência do menino isto que tanto idealizava. Romântico, talvez, fosse o termo que melhor opera esta aproximação.
È efeito deste tempo que acostumamos a medir, cada vez mais veloz, com seus minutos, segundos, átimos, centésimos, milésimos, milionésimos, máquinas de fórmula 1, supersônicos, que por mais próximo que cheguemos nunca conseguimos apreendê-lo por todo. Este garoto e aquele velho guardam a tamanha distância entre um 13x5 e um 1x1, entre o ontem e o hoje. Este garoto cresce insensível às suas próprias mudanças e, ao não percebê-las, as naturaliza dizendo para si: “é assim mesmo”. Talvez queira agora ganhar dinheiro e medir pentelhonésimos de segundos, talvez pense avidamente em enriquecer, certamente quer hoje falar muito mais que ouvir, talvez escreva para libertar-se um pouco do peso da angústia enquanto torna a adicionar peso em sua prática cotidiana, ciclo vicioso, decerto não imagina terminar a vida como um guarda de play, terá menos histórias para contar, talvez ninguém para ouvir, onde o talvez é a coisa mais certa de todas, haja vista a incerteza que paira sobre épocas de instabilidade. É este tempo de conhecimento desenfreado e especializado, deste tempo corrido e pouco, destas multidões de solidões instantâneas, deste bando de indivíduos aparentemente desconexos, que quanto mais quebra o seu objeto, em sua percepção, em partes menores e menores, perde o que há de mais importante na análise: perceber a relação que as partes mantém entre si. Que os segundos mantém com os minutos, que os indivíduos tem com o coletivo, que os coletivos têm com os indivíduos, que os mais velhos mantém com suas histórias e com as outras pessoas, em geral. Estamos condicionados a esquecer aquilo que poderia nos transformar.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Com traste

 

 

 

Tudo que vc lê, já foi lido

Tudo que vc sente, já fez sentido

Tudo que vc crê, me é inverossímel

Meu bem, não me leve a mal

Se Tudo que vc acha concreto

A mim soa como irreal

Se Tudo que vc acha concreto

A mim soa como irreal

 

Feitos de matérias distintas

Tu na terra e eu no ar

Tu no solo e eu no mar

Se eu sou transparência

você me é tinta

eu rabisco tudo e você me pinta

eu te rabisco e você me pinta

eu te rabisco e você me pinta

 

Por isso sempre nos damos

tão bem e por instantes

Somos mesmo tão próximos,

Neste interno e distante

Eterno abismo edificante

Eu sou pró, você é anti.

Eu sou pró e você é anti

 

Se eu parto você aborta

Se eu não ligo você se importa

Enquanto vôo pela janela

Você me fecha a porta, da sala

Pois eu canto e você se cala

Pois eu canto e você se cala

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Acampamento da Educação

Sobre a crônica

 

Diz-se daqueles que se pretendem cronistas que estes devem ter olhos atentos ao cotidiano e que a cada detalhe que lhes saltarem às vistas, pode estar a surgir uma ótima oportunidade de um texto. Imagina-se, assim, que o trabalho de um cronista é deveras facilitado. Afinal, quer coisa menos dolorosa do que criar um texto de uma borboleta que pousa no jardim? Ou outro acerca da violência da cidade, ou do sol que não vem, da chuva que se foi, dos estragos que surgiram, do carnaval vindouro, no aniversário chegando (seja de quem for, sempre há um) ou de eteceteras mil? Desta maneira, presume-se, com um ar quase douto: assuntos são o que não faltam para um cronista atento. Logo, este, ao escrever, sempre tem um farto material a sua disposição. Um problema a menos, certo?

- Errado- respondo.

- Por quê? – me perguntas e, se não me perguntas, invento uma terceira personagem responsável por proferir esta importante dúvida pra este texto.

Primeiramente porque no Rio de Janeiro, cidade cinza e concreta, tem tempos que borboletas não pousam em jardim algum, quis a natureza combinada com a sociedade que, no máximo, mariposas conseguissem esta proeza nos dias de hoje. Daí que para pretensos cronistas, que aqui vivemos, a borboleta já não faz mais parte do cotidiano; é sim, extraordinário, quase alienígena. Não será tarde o tempo em que borboletas e grandes sociedades só se encontrarão nos Museus biológicos ou Naturais, se estes ainda existirem. Mas não é só das noticias que queríamos dar, mas  que não aconteceram, que se fazem os empecilhos aos escrevinhadores, principalmente àqueles que, como este que vos fala, carece de dotes para tanto. O grande problema para uma crônica nos dias de hoje reside numa singela contradição: o tanto de assuntos que se tem pra falar versus o tanto de faladores que se espalham por aí. Daí que, para além da dificuldade de se selecionar um assunto dentre os milhares, carecemos também da originalidade, haja vista que muitos já falaram sobre tudo, nos mínimos detalhes e com – nalguns casos- dosadelas de imaginação.

Do estrupo do BBB-que-ficou-esbranquiçado-de-vez-numa-terra-de-gente-bronzeada, ou das chuvas torrenciais que castigam as populações ribeirinhas e as que vivem em encostas de morros? Das noticias sempre pululantes do futebol ou do ingresso que acabou da banda cult que fez todos os seus amigos de mais de 30 anos parecerem fãs teenagers? Da crise econômica mundial ou do programa de televisão que põe socialites para defecarem seu muito vazio em nossas mentes? Do ajuste fiscal? Falaremos do reitor da USP? Do aumento das passagens dos ônibus nas muitas capitais em ano eleitoral? Talvez do UFC. Da democracia falida ou da democracia pelas próprias mãos? Da ocupação de Pinheirinhos? Da doença do grande comediante? Ou da comédia da grave doença?

Eis o menu, a escolher.

Os assuntos são muitos e, em meio a eles e a persistente falta de criatividade, fica a certeza de um dever: o  de que diante a tantas dúvidas de assuntos que versam desde o nada até ao mais importante, do boçal ao assaz, há algo que unifica e se transparece em todos estes pequenos fragmentos, compósitos de uma mesma realidade, e é isto, sempre, que devemos buscar sinalizar:

A de que crônica de verdade é esta nossa situação.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Um espetáculo de horror.

 

imageAndo me espezinhando muito quando, caminhando nas ruas daquilo que designamos em algum momento “metrópole”, presto atenção ao meu redor, embora este gesto seja cada vez mais raro - sintoma indelével da insensibilidade crescente para coisas outras que não o nosso próprio umbigo (este tom impessoal que segue é um artifício discursivo de anonimato, daí que em meio a tantos, me eximo). Pessoas enegrecidas pela fuligem urbana olham-nos piedosamente e crêem-nos salvadores de seus problemas- ao menos momentaneamente- Dá um trocado aí?, meninas e meninos cheiram cada vez mais cola, cada vez mais cedo. Assaltos a ônibus? Desconheço pessoa que não tenha passado por, no mínimo, um. O caos desordenado, desigual, excludente, batizado como progresso - adoro estes eufemismos liberais!- cada vez se assoberba mais nas ruas empoeiradas do Grande Rio ou qualquer outra coisa que seja demasiadamente grande para ser caótica, binômio comum na modernidade capitalista.

E as criancinhas de sinal? Sim. Aquelas que vendiam, até bem pouco, balas, doces, ou qualquer bugiganga que pudesse ser comercializada ao tempo que pedestres atiram-se sobre os carros. Agora deleitam-nos, no breve intervalo do vermelho, com suas habilidades malabares. Todos, exagerando-se. Se pudéssemos exemplificar uma transformação em massa, projeto de homogeneização mesmo, este seria indubitavelmente um ótimo exemplo: todos os pequenos antigos vendedores de rua menores de idade passaram agora a malabaristas. Não que eu tenha algo contra a arte, ou a rua, ou aos meninos. Mas imagino que esta súbita transformação tenha origens nesta mesma incômoda realidade, a qual tangenciei irresponsavelmente acima, que nos angustia, sufoca, e até mesmo faz-nos agir. Ressalto: agir. Nem que seja para conservar.

Já construo até mentalmente a cena da pequena e profunda transformação: num destes fins de tarde em Botafogo, naquele tráfego simplesmente infernal da São Clemente (poderia ser na Voluntários também), “o tio” cansou-se de ver-lhe oferecido balas, chicletes, chocolates, por aqueles meninos que parecem cultivar uma coriza eterna na narina direita. Pensou, como pensa a sociedade em geral, para si mesmo: por que não transformar estes “potenciais marginais” em praticante de uma arte circense? Estes eram os termos do pensamento porque o tio era de direita - fosse de esquerda mudavam-se os termos, só os termos - participante de uma destas ONGs explicitamente governamentais que mantém laços estreitos com os centros de poder. Pegou o seu celular e, com três ligações, informou a tantos outros tios de direita como ele, desta pequena e repentina idéia de transformar o horror em algo mais agradável. O tio ainda se irritou com impertinência de um menino que, durante uma das ligações, ousou-lhe oferecer uma lavadela no vidro do carro, irritação condescendente, destas que toda mãe lança quando olha duro para seu filho repressora, mas diz calada e enternecida: é para o seu próprio bem.

Daí pra frente tudo bem imaginável: lá se vão os voluntários vestidos de branco, ou preto - com inscrições que clamam a paz: basta!, Chega!, Paz!, Gabriela! E outras palavras que se ensimesmam - cheios de piedade no coração, vieram eles retificar a exclusão destas párias de uma forma sui generis: oferecendo-lhes uma ocupação, a mídia arma-se, a sociedade se organiza. Mobilização esta que de benevolente nada tem, é a mais excludente e perversa justamente por não sê-la, aparentemente. Nos meandros, deixa claro qual o limite que essa sociedade imputa a estas crianças: serem objetos de contemplação distantes, que reforcem a nossa sensação de impotência e comodismo, de preferência de forma anestésica - lembre-se: sua infelicidade é culpa tua exclusivamente, há sempre pessoas mais fudidas que você. O assistencialismo redunda na salvação. Agimos.

Separadas da gente por um vidro, de preferência reforçado, e ar condicionado para aturar o calor que faz lá fora, agora não mais tomamos um soco no estômago cada vez que um menininho se aproxima e nos pede um trocadinho.

Impassíveis, assistimos as bolas lançadas ao ar - parecem bem as nossas vidas, que sorte terão?- uma duas três quatro, chão, perna aqui, braço lá, pirueta, chão, corre pra lá, toc toc, R$0,37, se aproximam, breve tremor, oi , mão estendida sorriso no rosto, não, chão, chão, chão, sinal verde até mais. A imagem deletéria é descartada na primeira paisagem, outdoor, cruzamento ou corpo agradável. Assim, como tudo hoje em dia, imediatamente descartável. Seguimos nosso rumo, uma falsa sensação de bem estar nos invade, um sorriso ensaia-se no canto da boca, facilmente reprimidos seguimos nosso rumo, para onde for isto, adocicados: amanhã tem mais espetáculo do horror.

FIM

imageHoje resolvi me despedi de tudo o que fui. Acabou-se em mim as épocas das fanfarronices e bonanças, das mulheres e ratarias, das putas que nunca tive e sempre me vangloriei, dos amigos de ausências em bares, das pessoas falsas e medíocres que eu sou também, da hipocrisia e reificação, das drogas desenfreadas e roubos, das perdas propositais, da minha incapacidade de ouvir, do meu sorriso frouxo, do meu olhar cego e vazio, do vácuo que há em mim refletido, da minha falta de conteúdo e esperança, do meu ego, das falcatruagens rapinescas e sujas, das minhas celas e grades, dos meus preconceitos ocidentais e imbecis, da minha incorreção, dos valores burgueses introjetados e vividos como natural, da minha tosca vaidade orgulhosa, da minha busca infrutífera e egoísta de amainar minhas dores dividindo-a com os outros que no final pouca culpa me cabe, das pontadas urrantes da minha narcotização pelas ideologias furadas e pelas furadas ideológicas, da minha pouca materialidade e concretude, da bagunça de minha casa, do meu lado social podre de poder e não conseguir ser aquilo que desejo para mim, da minha contemplativa indignação, da minha acomodada compaixão para com as causas alheias, das negações relutantes das minhas mais ásperas contradições, do meu esconderijo que me faz restar somente em aparência, da minha parca imaginação, da minha rasa espiritualidade, dos meus relacionamentos mesquinhos, dos meus amores enclausarantes e sufocador, se for para ser assim prefiro não, da minha falta para com as pessoas que eu amo, da minha falta de compromisso comigo e com os outros, do meu sadismo, da minha ironia pouca e agressiva, da minha incapacidade de dizer o que sinto porque temo me ferir e não conseguir, do meu desejo de sempre ser vítima, da minha adocicada e relaxante frustração alienada, das minhas alternativas individualizadas e estéreis, da minha rouquidão e tosse: já estou doente- quem não está?- e essa doença se desenrola em outras e se chama submissão, por mais que eu acredite e propague o contrário. O que são as palavras senão torrentes intermináveis de sentimentos que não existem fora de sua lógica intrínseca senão para quem enuncia? Mensagem retesada que emana, senão inteira, ao menos totalizada e chega ao outro fragmentada e perdida, como nós e nossas relações. Língua que serve hodiernamente para justificar-nos e obnubilar a percepção de nossos legítimos impulsos e lugares. Somos línguas intangíveis. O que somos nós além da verdade e mentira que temos para conosco? Eu tenho sido mentira. Não há, definitivamente, mais salvação para um pobre e baixo espírito como o meu. Reconheço-me como um burguês, sempre fui apenas mais um disso, hoje serei um a menos.