Diz-se daqueles que se pretendem cronistas que estes devem ter olhos atentos ao cotidiano e que a cada detalhe que lhes saltarem às vistas, pode estar a surgir uma ótima oportunidade de um texto. Imagina-se, assim, que o trabalho de um cronista é deveras facilitado. Afinal, quer coisa menos dolorosa do que criar um texto de uma borboleta que pousa no jardim? Ou outro acerca da violência da cidade, ou do sol que não vem, da chuva que se foi, dos estragos que surgiram, do carnaval vindouro, no aniversário chegando (seja de quem for, sempre há um) ou de eteceteras mil? Desta maneira, presume-se, com um ar quase douto: assuntos são o que não faltam para um cronista atento. Logo, este, ao escrever, sempre tem um farto material a sua disposição. Um problema a menos, certo?
- Errado- respondo.
- Por quê? – me perguntas e, se não me perguntas, invento uma terceira personagem responsável por proferir esta importante dúvida pra este texto.
Primeiramente porque no Rio de Janeiro, cidade cinza e concreta, tem tempos que borboletas não pousam em jardim algum, quis a natureza combinada com a sociedade que, no máximo, mariposas conseguissem esta proeza nos dias de hoje. Daí que para pretensos cronistas, que aqui vivemos, a borboleta já não faz mais parte do cotidiano; é sim, extraordinário, quase alienígena. Não será tarde o tempo em que borboletas e grandes sociedades só se encontrarão nos Museus biológicos ou Naturais, se estes ainda existirem. Mas não é só das noticias que queríamos dar, mas que não aconteceram, que se fazem os empecilhos aos escrevinhadores, principalmente àqueles que, como este que vos fala, carece de dotes para tanto. O grande problema para uma crônica nos dias de hoje reside numa singela contradição: o tanto de assuntos que se tem pra falar versus o tanto de faladores que se espalham por aí. Daí que, para além da dificuldade de se selecionar um assunto dentre os milhares, carecemos também da originalidade, haja vista que muitos já falaram sobre tudo, nos mínimos detalhes e com – nalguns casos- dosadelas de imaginação.
Do estrupo do BBB-que-ficou-esbranquiçado-de-vez-numa-terra-de-gente-bronzeada, ou das chuvas torrenciais que castigam as populações ribeirinhas e as que vivem em encostas de morros? Das noticias sempre pululantes do futebol ou do ingresso que acabou da banda cult que fez todos os seus amigos de mais de 30 anos parecerem fãs teenagers? Da crise econômica mundial ou do programa de televisão que põe socialites para defecarem seu muito vazio em nossas mentes? Do ajuste fiscal? Falaremos do reitor da USP? Do aumento das passagens dos ônibus nas muitas capitais em ano eleitoral? Talvez do UFC. Da democracia falida ou da democracia pelas próprias mãos? Da ocupação de Pinheirinhos? Da doença do grande comediante? Ou da comédia da grave doença?
Eis o menu, a escolher.
Os assuntos são muitos e, em meio a eles e a persistente falta de criatividade, fica a certeza de um dever: o de que diante a tantas dúvidas de assuntos que versam desde o nada até ao mais importante, do boçal ao assaz, há algo que unifica e se transparece em todos estes pequenos fragmentos, compósitos de uma mesma realidade, e é isto, sempre, que devemos buscar sinalizar:
A de que crônica de verdade é esta nossa situação.
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