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domingo, 22 de janeiro de 2012
Pinheirinho viverá!
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Post fabulum
Crõnica escrita no dia 30-04-2007.

Poderia ser uma raposa, era um senhor. O outro - criança de apartamento, enleve-se a ingenuidade e pureza, portanto - seria um cordeiro. Poderíamos ter um castelo, seus lagos e vales, uma ponte, muitos arbustos, um passado verde e desumano, mitos, Deus, distâncias físicas, animais falantes, monstros e bruxas, mais Deuses enfim. Mas ali era só um lugar humano, demasiadamente humano, em um prédio gradeado, filmado, guardado e armado ao pé do morro, cercado por comunidades beligerantes, individualizado em pequenos cubículos que se amontoavam em 6 blocos de apartamentos, 2 ou 3 quartos, quadras e piscinas, suas churrasqueiras e área ampla de lazer, coberturas panorâmicas, falta agora informar-lhes o preço e condições de pagamento que ao menos um objetivo este texto terá atingido, com agradecimentos da imobiliária. Mas o que nos importa é que naquilo havia um universo próprio, pois. Poderia ser muito, mas era isso o tudo, as fábulas se constroem de acordo com seu tempo.
Poderia ser uma raposa, já foi dito. Mas deveras fantástico eram aqueles menino e velho, guardadores de uma relação pouco comum contemporaneamente: afeto. Ele, mais idoso, era guardião do playground, palavra que define em um estrangeirismo grunhido aquela área comum que os pivetes de tenra idade, logo ao raiar do dia, já ocupavam com seus gritantes e lúdicos mundos, com suas bicicletas e bolas de variados tamanhos e cores. Seu Oscar- este o nome do ancião- era desses que guardava muito prazer por pouco tempo de prosa. E o menino, daqueles que adoravam as histórias, estejam nos livros ou mesmo no cotidiano, tinha dois olhos e dois ouvidos mais uma boca como todos nós - que em geral não nos apercebemos do fato - e por isso interessava-lhe muito mais ver e ouvir do que propriamente falar. Seu Oscar já beirava os 80 anos, tendo, portanto, ouvido e visto muito mais por este longo tempo de curtos anos, sua vida, restava-lhe agora, no fim, o desejo mais que compreensível de falar sem medidas. O assunto predileto era o futebol, debate que, não interessa a idade, sempre preenche as lacunas da comunicação masculina, ainda mais quando os interlocutores torcem para o mesmo time, era o caso.
Enquanto não se organizavam os times de futebol com bola de espuma, não se iniciava o pique esconde com walk talk, a polícia e ladrão com pistola de ar, a corrida - maluca com bicicletas - adventos da nossa sociedade cruel que através da tecnologia potencializa nos espíritos o que há de mais sádico e transforma as antigas brincadeiras de grupo em rituais irreconhecíveis e ao mesmo tempo prolifera os jogos de guerra para crianças, elas ganham ponto ao matarem o inimigo, pode ser um outro soldado ou mesmo um civìl, coitado, andando na rua - enquanto isso não acontecia, ele ia para aquele canto do play onde ouvia demoradamente as histórias de seu Oscar, muitas sobre o seu sobrinho que jogara futebol profissionalmente, algumas outras sobre a atualidade do time tricolor daquela cidade, discutiam arduamente quando seu Oscar expunha sua tese racista sobre vitórias e a proporção de negros no time, não é necessário dizer que seu Oscar era racista, dada a sua idade e a sociedade conturbada em que vivemos (que nega a suas origens como forma instantânea de apreender a auto-negação da vida), por mais que isso em última instância não fosse culpa sua, mais disto cujo nome civilização nos adorna e introjeta-se-nos, valores que não são nossos, palavras que ficam feias em nossa boca porque foram pensadas por outros em prol deles mesmos, coisas da ideologia dominante. Incrivelmente, não era comum o sr. reclamar das dores oriundas da idade para este menino, ou da falta de visão que lhe fazia confundir feições, ou da perda de audição, pois que gritava ao falar, estes assuntos, muito caros aos idosos, só se dão, se bem observar você, quando os matutos ancestrais não são instigados a falar de suas memórias, coisa que de tão ampla e rica, guardam em si o que há de mais legitimo no pensar humano que é a profusão de sonhos e vontades amalgamando-se a isto que chamamos de razão. Sim, tese. Também não era comum ao menino outra coisa que a paciência pois, incrivelmente - como tudo que há de não crível nesta fábula sem bichos afora a raposa e o cordeiro, que já foram - na nossa transviada sociedade, quanto mais tempo temos para nós, mais impaciente ficamos. Sentava-se ali, ao sopé da cadeira do vigia e aguardava aquelas doces palavras de sua voz que em dado momento soava como música, dançava pelo ar, voz doce e cansada de uma vida de duras penas, não fosse assim não seria vigia aos oitenta anos, deixando de ter somente sentindo sintático, mas ganhando em profundidade e melodia - quem nunca sentiu uma voz que fizesse cosquinha nos tímpanos? E ia-se pelas histórias, a se perder em memórias que emergiam, submergiam, se confundiam, trocavam de cores e sons, mas eram. E eram com um peso tamanho que até gozavam de prova: com a ajuda de uma seção a qual falava sobre as notícias de 50 anos atrás, mostrava ao rapazote os resultados dos jogos de antanho. Óbvio que isto cresceu na cabeça deste moleque, tão acostumado a um futebol de poucos espaços, muitas marcação e seres superdotados fisicamente com o que a medicina desportiva pode oferecer de mais inova - dor. 12x8, 7x4, 5x5, 11x3, o futebol não é mais o mesmo. Nostálgico, acusar-lhe-iam alguns, conquanto não seja palavra própria, pois não fora vivência do menino isto que tanto idealizava. Romântico, talvez, fosse o termo que melhor opera esta aproximação.
È efeito deste tempo que acostumamos a medir, cada vez mais veloz, com seus minutos, segundos, átimos, centésimos, milésimos, milionésimos, máquinas de fórmula 1, supersônicos, que por mais próximo que cheguemos nunca conseguimos apreendê-lo por todo. Este garoto e aquele velho guardam a tamanha distância entre um 13x5 e um 1x1, entre o ontem e o hoje. Este garoto cresce insensível às suas próprias mudanças e, ao não percebê-las, as naturaliza dizendo para si: “é assim mesmo”. Talvez queira agora ganhar dinheiro e medir pentelhonésimos de segundos, talvez pense avidamente em enriquecer, certamente quer hoje falar muito mais que ouvir, talvez escreva para libertar-se um pouco do peso da angústia enquanto torna a adicionar peso em sua prática cotidiana, ciclo vicioso, decerto não imagina terminar a vida como um guarda de play, terá menos histórias para contar, talvez ninguém para ouvir, onde o talvez é a coisa mais certa de todas, haja vista a incerteza que paira sobre épocas de instabilidade. É este tempo de conhecimento desenfreado e especializado, deste tempo corrido e pouco, destas multidões de solidões instantâneas, deste bando de indivíduos aparentemente desconexos, que quanto mais quebra o seu objeto, em sua percepção, em partes menores e menores, perde o que há de mais importante na análise: perceber a relação que as partes mantém entre si. Que os segundos mantém com os minutos, que os indivíduos tem com o coletivo, que os coletivos têm com os indivíduos, que os mais velhos mantém com suas histórias e com as outras pessoas, em geral. Estamos condicionados a esquecer aquilo que poderia nos transformar.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Com traste
Tudo que vc lê, já foi lido
Tudo que vc sente, já fez sentido
Tudo que vc crê, me é inverossímel
Meu bem, não me leve a mal
Se Tudo que vc acha concreto
A mim soa como irreal
Se Tudo que vc acha concreto
A mim soa como irreal
Feitos de matérias distintas
Tu na terra e eu no ar
Tu no solo e eu no mar
Se eu sou transparência
você me é tinta
eu rabisco tudo e você me pinta
eu te rabisco e você me pinta
eu te rabisco e você me pinta
Por isso sempre nos damos
tão bem e por instantes
Somos mesmo tão próximos,
Neste interno e distante
Eterno abismo edificante
Eu sou pró, você é anti.
Eu sou pró e você é anti
Se eu parto você aborta
Se eu não ligo você se importa
Enquanto vôo pela janela
Você me fecha a porta, da sala
Pois eu canto e você se cala
Pois eu canto e você se cala
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Sobre a crônica
Diz-se daqueles que se pretendem cronistas que estes devem ter olhos atentos ao cotidiano e que a cada detalhe que lhes saltarem às vistas, pode estar a surgir uma ótima oportunidade de um texto. Imagina-se, assim, que o trabalho de um cronista é deveras facilitado. Afinal, quer coisa menos dolorosa do que criar um texto de uma borboleta que pousa no jardim? Ou outro acerca da violência da cidade, ou do sol que não vem, da chuva que se foi, dos estragos que surgiram, do carnaval vindouro, no aniversário chegando (seja de quem for, sempre há um) ou de eteceteras mil? Desta maneira, presume-se, com um ar quase douto: assuntos são o que não faltam para um cronista atento. Logo, este, ao escrever, sempre tem um farto material a sua disposição. Um problema a menos, certo?
- Errado- respondo.
- Por quê? – me perguntas e, se não me perguntas, invento uma terceira personagem responsável por proferir esta importante dúvida pra este texto.
Primeiramente porque no Rio de Janeiro, cidade cinza e concreta, tem tempos que borboletas não pousam em jardim algum, quis a natureza combinada com a sociedade que, no máximo, mariposas conseguissem esta proeza nos dias de hoje. Daí que para pretensos cronistas, que aqui vivemos, a borboleta já não faz mais parte do cotidiano; é sim, extraordinário, quase alienígena. Não será tarde o tempo em que borboletas e grandes sociedades só se encontrarão nos Museus biológicos ou Naturais, se estes ainda existirem. Mas não é só das noticias que queríamos dar, mas que não aconteceram, que se fazem os empecilhos aos escrevinhadores, principalmente àqueles que, como este que vos fala, carece de dotes para tanto. O grande problema para uma crônica nos dias de hoje reside numa singela contradição: o tanto de assuntos que se tem pra falar versus o tanto de faladores que se espalham por aí. Daí que, para além da dificuldade de se selecionar um assunto dentre os milhares, carecemos também da originalidade, haja vista que muitos já falaram sobre tudo, nos mínimos detalhes e com – nalguns casos- dosadelas de imaginação.
Do estrupo do BBB-que-ficou-esbranquiçado-de-vez-numa-terra-de-gente-bronzeada, ou das chuvas torrenciais que castigam as populações ribeirinhas e as que vivem em encostas de morros? Das noticias sempre pululantes do futebol ou do ingresso que acabou da banda cult que fez todos os seus amigos de mais de 30 anos parecerem fãs teenagers? Da crise econômica mundial ou do programa de televisão que põe socialites para defecarem seu muito vazio em nossas mentes? Do ajuste fiscal? Falaremos do reitor da USP? Do aumento das passagens dos ônibus nas muitas capitais em ano eleitoral? Talvez do UFC. Da democracia falida ou da democracia pelas próprias mãos? Da ocupação de Pinheirinhos? Da doença do grande comediante? Ou da comédia da grave doença?
Eis o menu, a escolher.
Os assuntos são muitos e, em meio a eles e a persistente falta de criatividade, fica a certeza de um dever: o de que diante a tantas dúvidas de assuntos que versam desde o nada até ao mais importante, do boçal ao assaz, há algo que unifica e se transparece em todos estes pequenos fragmentos, compósitos de uma mesma realidade, e é isto, sempre, que devemos buscar sinalizar:
A de que crônica de verdade é esta nossa situação.
domingo, 15 de janeiro de 2012
Um espetáculo de horror.
Ando me espezinhando muito quando, caminhando nas ruas daquilo que designamos em algum momento “metrópole”, presto atenção ao meu redor, embora este gesto seja cada vez mais raro - sintoma indelével da insensibilidade crescente para coisas outras que não o nosso próprio umbigo (este tom impessoal que segue é um artifício discursivo de anonimato, daí que em meio a tantos, me eximo). Pessoas enegrecidas pela fuligem urbana olham-nos piedosamente e crêem-nos salvadores de seus problemas- ao menos momentaneamente- Dá um trocado aí?, meninas e meninos cheiram cada vez mais cola, cada vez mais cedo. Assaltos a ônibus? Desconheço pessoa que não tenha passado por, no mínimo, um. O caos desordenado, desigual, excludente, batizado como progresso - adoro estes eufemismos liberais!- cada vez se assoberba mais nas ruas empoeiradas do Grande Rio ou qualquer outra coisa que seja demasiadamente grande para ser caótica, binômio comum na modernidade capitalista.
E as criancinhas de sinal? Sim. Aquelas que vendiam, até bem pouco, balas, doces, ou qualquer bugiganga que pudesse ser comercializada ao tempo que pedestres atiram-se sobre os carros. Agora deleitam-nos, no breve intervalo do vermelho, com suas habilidades malabares. Todos, exagerando-se. Se pudéssemos exemplificar uma transformação em massa, projeto de homogeneização mesmo, este seria indubitavelmente um ótimo exemplo: todos os pequenos antigos vendedores de rua menores de idade passaram agora a malabaristas. Não que eu tenha algo contra a arte, ou a rua, ou aos meninos. Mas imagino que esta súbita transformação tenha origens nesta mesma incômoda realidade, a qual tangenciei irresponsavelmente acima, que nos angustia, sufoca, e até mesmo faz-nos agir. Ressalto: agir. Nem que seja para conservar.
Já construo até mentalmente a cena da pequena e profunda transformação: num destes fins de tarde em Botafogo, naquele tráfego simplesmente infernal da São Clemente (poderia ser na Voluntários também), “o tio” cansou-se de ver-lhe oferecido balas, chicletes, chocolates, por aqueles meninos que parecem cultivar uma coriza eterna na narina direita. Pensou, como pensa a sociedade em geral, para si mesmo: por que não transformar estes “potenciais marginais” em praticante de uma arte circense? Estes eram os termos do pensamento porque o tio era de direita - fosse de esquerda mudavam-se os termos, só os termos - participante de uma destas ONGs explicitamente governamentais que mantém laços estreitos com os centros de poder. Pegou o seu celular e, com três ligações, informou a tantos outros tios de direita como ele, desta pequena e repentina idéia de transformar o horror em algo mais agradável. O tio ainda se irritou com impertinência de um menino que, durante uma das ligações, ousou-lhe oferecer uma lavadela no vidro do carro, irritação condescendente, destas que toda mãe lança quando olha duro para seu filho repressora, mas diz calada e enternecida: é para o seu próprio bem.
Daí pra frente tudo bem imaginável: lá se vão os voluntários vestidos de branco, ou preto - com inscrições que clamam a paz: basta!, Chega!, Paz!, Gabriela! E outras palavras que se ensimesmam - cheios de piedade no coração, vieram eles retificar a exclusão destas párias de uma forma sui generis: oferecendo-lhes uma ocupação, a mídia arma-se, a sociedade se organiza. Mobilização esta que de benevolente nada tem, é a mais excludente e perversa justamente por não sê-la, aparentemente. Nos meandros, deixa claro qual o limite que essa sociedade imputa a estas crianças: serem objetos de contemplação distantes, que reforcem a nossa sensação de impotência e comodismo, de preferência de forma anestésica - lembre-se: sua infelicidade é culpa tua exclusivamente, há sempre pessoas mais fudidas que você. O assistencialismo redunda na salvação. Agimos.
Separadas da gente por um vidro, de preferência reforçado, e ar condicionado para aturar o calor que faz lá fora, agora não mais tomamos um soco no estômago cada vez que um menininho se aproxima e nos pede um trocadinho.
Impassíveis, assistimos as bolas lançadas ao ar - parecem bem as nossas vidas, que sorte terão?- uma duas três quatro, chão, perna aqui, braço lá, pirueta, chão, corre pra lá, toc toc, R$0,37, se aproximam, breve tremor, oi , mão estendida sorriso no rosto, não, chão, chão, chão, sinal verde até mais. A imagem deletéria é descartada na primeira paisagem, outdoor, cruzamento ou corpo agradável. Assim, como tudo hoje em dia, imediatamente descartável. Seguimos nosso rumo, uma falsa sensação de bem estar nos invade, um sorriso ensaia-se no canto da boca, facilmente reprimidos seguimos nosso rumo, para onde for isto, adocicados: amanhã tem mais espetáculo do horror.
FIM
Hoje resolvi me despedi de tudo o que fui. Acabou-se em mim as épocas das fanfarronices e bonanças, das mulheres e ratarias, das putas que nunca tive e sempre me vangloriei, dos amigos de ausências em bares, das pessoas falsas e medíocres que eu sou também, da hipocrisia e reificação, das drogas desenfreadas e roubos, das perdas propositais, da minha incapacidade de ouvir, do meu sorriso frouxo, do meu olhar cego e vazio, do vácuo que há em mim refletido, da minha falta de conteúdo e esperança, do meu ego, das falcatruagens rapinescas e sujas, das minhas celas e grades, dos meus preconceitos ocidentais e imbecis, da minha incorreção, dos valores burgueses introjetados e vividos como natural, da minha tosca vaidade orgulhosa, da minha busca infrutífera e egoísta de amainar minhas dores dividindo-a com os outros que no final pouca culpa me cabe, das pontadas urrantes da minha narcotização pelas ideologias furadas e pelas furadas ideológicas, da minha pouca materialidade e concretude, da bagunça de minha casa, do meu lado social podre de poder e não conseguir ser aquilo que desejo para mim, da minha contemplativa indignação, da minha acomodada compaixão para com as causas alheias, das negações relutantes das minhas mais ásperas contradições, do meu esconderijo que me faz restar somente em aparência, da minha parca imaginação, da minha rasa espiritualidade, dos meus relacionamentos mesquinhos, dos meus amores enclausarantes e sufocador, se for para ser assim prefiro não, da minha falta para com as pessoas que eu amo, da minha falta de compromisso comigo e com os outros, do meu sadismo, da minha ironia pouca e agressiva, da minha incapacidade de dizer o que sinto porque temo me ferir e não conseguir, do meu desejo de sempre ser vítima, da minha adocicada e relaxante frustração alienada, das minhas alternativas individualizadas e estéreis, da minha rouquidão e tosse: já estou doente- quem não está?- e essa doença se desenrola em outras e se chama submissão, por mais que eu acredite e propague o contrário. O que são as palavras senão torrentes intermináveis de sentimentos que não existem fora de sua lógica intrínseca senão para quem enuncia? Mensagem retesada que emana, senão inteira, ao menos totalizada e chega ao outro fragmentada e perdida, como nós e nossas relações. Língua que serve hodiernamente para justificar-nos e obnubilar a percepção de nossos legítimos impulsos e lugares. Somos línguas intangíveis. O que somos nós além da verdade e mentira que temos para conosco? Eu tenho sido mentira. Não há, definitivamente, mais salvação para um pobre e baixo espírito como o meu. Reconheço-me como um burguês, sempre fui apenas mais um disso, hoje serei um a menos.