quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Amor a dia





Meu amor é feito de espinhos,
É como asa sem passarinho
Como avião que não pode voar
Parece chão doído de pisar

O meu amor é virulento
Sou um machista feminista que não me aguento
É pura poesia do tormento
Ou a arte do posterior  lamento

O meu amor não é só ciúmes,
É ciúmes e imaturidade
Vingança e veleidade
É mentira se tornando verdade

Sou um doente sadio
Ou um sado doentio
A sanidade por um fio
Amor de pai, que nunca teve filho

Este amor muito me intriga
Gosto de curry com briga
Que precisa perder pra ver que ganhava
que precisa acordar enquanto bem sonhava

Mas ele também é legítimo e intenso
Pode ser leve ou pode ser tenso
Mas com muito fogo é o meu amor:
Não sei ser frio, enquanto sinto calor


E desculpe o meu exagero
Daquele que não sabe amar sem freio
E, assim, com força atropela
E questiono se meu amor é legítimo meio
(ou se tá mais pra novela)
todavia, algo se me revela
em plena lua cheia do Rio de Janeiro
(Já viram como ela está bela?)

Eu não sei te amar, se não for por inteiro. 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Lista á pau (ou á paulista)



Na terra da garoa
A garoa não pisa mais
Pra guria e pra coroa
Falta água, mas tanto faz.

Afinal desejavam Neves
E num passo de alkimia
Elegeram como governador
O homem que com a água sumia

Reza lenda, dessas que não tem dó,
Que a alkimia seria
Transformar água em pó,
Ou pó em neves?

Quanta ironia que não se avexe
Promovida pela SABESP
A água antes direito, agora lucro.
Pois todo problema tem um fulcro!

Taí mais um exemplo da malfadada privatização
Achar que os direitos serão tratados com correção
Por quem nos estupra e, quando a baixa dos lucros se avizinha,
nos cobram pelo gozo, pelo estupro e pela camisinha!

Mas meus caros concidadãos permitam-me lhes falar
A tragédia posta foi produzida pela ignorância
Daqueles muitos que-dentre nós- não souberam votar
E damo-los nomes aos bois, para não haja engano:
Pois que não souberam votar aqueles que elegeram párias
Do nível de Telhada, Tiririca, Bolsonaro e Feliciano!

Obs: este á apenas uma "declaração crítica" de amor a uma cidade e povo que é parte inexorável de mim. 




quinta-feira, 22 de maio de 2014

Só lhe dão

Tantos prantos,

Tantas derrotas,

Quantas quedas

Muita história

 

E outra pedra

Tapando o nosso caminho

Ei de Lança-la na vidraça

De minha memória

 

E este pedaço de vida caído no chão, sou eu

Em tantas multidões, três vezes ao dia

Somos todos, na verdade, todos e sozinhos.

solitários e pouco solidários.

 

Vizinhos permaneceremos

Mesmo sem as paredes, pereceremos de ser.

Simplesmente por não sabermos mais como se faz

Proclamamos todo dia a guerra, dizendo defender a paz.

 

Fomos por outros caminhos que não nos levará ao essencial

Não leve a mal, este meu tom de doce amargura

É que palavra engasgada só se segura em seu canto

Se o pobre do papel não estiver em branco

 

Tantas frases que não pude proferir

Tantos provérbios que me esquivei de ouvir

Fiado na minha burra sabedoria

Das verdades mais óbvias, fazia escárnio e ria.

 

Pois tantas loucuras

Que esqueci de cometer

Tanta fartura

Que não soube dividir

 

Tenho mesmo o dom de me iludir

Aludir ao que não importa

E pras chances da vida, fechar a porta

Repetindo que é para não me ferir

 

Pois quem caminha por esta vida torta

Torto aprende a caminhar

E mesmo dando voltas na escuridão

Vive de tantas voltas dar.

 

Tontos ficamos de sermos

Exatamente aquilo que nos anula

Confundindo o supérfluo com princípios

Sempre se chega ao mesmo fim, ademais o início.

 

No entanto, mesmo neste caminho diletante

Sempre haverá algo em nós de militante

De sonhos, de pensamentos, de humano

Que nos despertará a qualquer momento ou num instante.

 

E descobriremos que a  engrenagem pode não funcionar

quando aquela pecinha que a move resolver

Que quer ser humano e não mais peça, este papel bisonho

Invés de viver o seu círculo, viver o seu sonho.

 

E daí, teremos …

 

Outros prantos,

Outras derrotas,

Mais tantas quedas

E outras tantas histórias

 

E outra pedra

A lançar na memória.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Réplica

Carlos Alberto Ferreira Lamarão

 

Marco Vinícius nasceu na noite de uma sexta-feira, dia 29 de janeiro de 1981, por volta das 23:30 h. no Hospital Santa Lúcia, na Rua Voluntários da Pátria, em Botafogo – Rio de Janeiro. Naquela época eu era empregado do Banco do Brasil e teria direito a cinco dias consecutivos de folga no trabalho, a partir da data do nascimento, para acompanhar o parto, providenciar seu registro e etc. Mas, como ele nasceu em uma sexta-feira à noite, aquele dia e mais o sábado e o domingo subsequentes, foram contados como “folgas”...

Chegou o rebento esperado!

E chegou me sacaneando

pois que, para nascer,

tinha a semana inteira,

mas nasceu na noite de uma sexta-feira

três dias de folga me tirando,

dos cinco que eu poderia ter.

Sua mãe começou a sentir “as dores” por volta das três horas da tarde, horário em que fui avisado e deixei o trabalho para acompanhá-la. Chegamos ao hospital, por orientação do médico, por volta das oito da noite. Somente então ela começou a ser assistida diretamente pelo seu médico. Ela pretendia proceder um parto normal, a exemplo do que acontecera com sua irmã, Flávia Rachel. Entretanto, após os primeiros exames preparatórios para o parto, a equipe médica constatou que o Marco encontrava-se “virado” no útero. Além disso, havia a possibilidade de que ele estivesse com o cordão umbilical enrolado no pescoço. O quadro descartava o parto normal e apontava para uma cesariana. Nunca fiquei totalmente convencido dessa “constatação”. Ainda hoje penso que a equipe médica arranjou um jeitinho de aumentar seus honorários. Mas, como não tínhamos como evitar, acabamos aceitando a cesariana.

Para nascer, fez-se esperado,

dando-nos doses de emoção

pois que, ao nascer tava enrolado

agarrado num tal cordão,

não bastasse estar virado,

no útero mal posicionado...

Já nasceu pedindo atenção!

O obstetra convidou-me para assistir ao parto. Em um primeiro momento, tive dúvidas se conseguiria pois nunca fui muito afeito a sangue e coisas e tais, além de ter total aversão ao cheiro do éter.

Quando do nascimento da Flávia, três anos antes, não me deixariam mesmo assistir ao parto porque contrariava as regras impostas pelas freiras que administravam o Hospital Santa Maria – pertencente à Benemérita Beneficiência Portuguesa, na Rua Santo Amaro, na Glória, também no Rio de Janeiro. Aliás, o “pudor” excessivo das freiras impediam, até, a minha presença no apartamento enquanto faziam curativos ou banhavam a mãe da Flávia. Tal hipótese jamais me ocorrera.

Era, portanto, uma oportunidade única e resolvi arriscar. Não filmei ou fotografei o parto, pois não estava preparado para fazê-lo. Mas ele está definitivamente gravado em minha memória. Enfim, correu tudo bem e foi uma das experiências mais interessantes pelas quais já passei.

Com convite não esperado

veio ao mundo o rebento

pois que a tudo assisti

tal qual um sonho, em ritmo lento

como se eu não estivesse ali

tudo acompanhando, tudo vendo...

Uma experiência e tanto, eu vivi.

Sua infância correu saudável entre as estrepolias do moleque. Tinha algumas características interessantes, não aprendidas conosco. Por exemplo, desde pequeno pedia à mãe um cafezinho após as refeições, hábito que não tínhamos em casa. Outra característica sua que me chamava a atenção era o fato de gostar de ler o jornal comigo. Só que ele se interessava, mesmo na tenra idade, pela página de política enquanto eu lia a parte de esportes.

Uma passagem muito interessante ficou em minha memória: Certa vez fui chamado à escola em que ele estudava. A responsável reclamava que o Marco estava vendendo bombons aos colegas por um preço menor do que a cantina da escola oferecia, “concorrendo” com o estabelecimento. Marco pegava o dinheiro que recebia para a sua merenda, comprava uma caixa de bombons no supermercado e revendia a unidade por um preço inferior ao da cantina, multiplicando seu dinheiro. Fiquei entusiasmado com a iniciativa do moleque. Comentei com a responsável que tinha duas coisas a dizer sobre o assunto. Primeiro, que se o Marco – uma criança – conseguia vender por preço menor, a cantina, provavelmente, estava cobrando muito caro pelos bombons. Segundo, que tal iniciativa não deveria ser criticada e sim enaltecida.

Cresceu o rebento, como esperado!

E cresceu me encantando

com seu jeitinho de ser

pois que, quando, jornal na mão, tomávamos sol,

discutia política enquanto eu lia futebol

muitas vezes me ensinando

o que estava a acontecer.

Tínhamos um acordo em casa: tendo em vista a fragilidade que, já naquela época, as escolas públicas de ensino fundamental ofereciam, Flávia e Marco teriam, no primário, o melhor ensino que eu pudesse pagar. Eles deveriam prepararem-se para cursarem o ginásio em escolas públicas que oferecessem ensino de qualidade pois eu não tinha certeza se conseguiria pagar-lhes escolas de bom nível. Até então, a escola nunca havia sido um problema para nenhum dos dois. Ambos eram excelentes alunos.

Flávia cumpriu o acordo plenamente. Saiu do primário para o Colégio Pedro II, onde cursou o ginásio e o científico. De lá, cursou a UERJ onde formou-se em Biologia. Atualmente é Mestre e Doutora.

Marco, nem tanto. Abandonou o concurso para o Colégio Militar, claudicou no do Colégio de Aplicação e acabou indo estudar no Pedro II, de onde foi convidado a retirar-se por mal comportamento e excesso de faltas. Passou para a Escola Federal de Química onde envolveu-se mais na política estudantil do que com os estudos e acabou tendo seu diploma do segundo grau obtido através de um curso supletivo. Naquela época, cheguei a temer por seu futuro.

Aos trancos e barrancos, resolveu cursar uma faculdade. Escolheu História e Filosofia. Na primeira, foi aprovado na UFF e na segunda, na UERJ. Escolheu a História, por fim. Apreensivo, cheguei a perguntar-lhe do que viveria, como se sustentaria formando-se em História. Sabia das dificuldades que a área apresentava e da pouca valorização que o mercado lhe dava. Ele, entretanto, insistiu e formou-se. Atualmente é Mestre e está doutorando.

Tornou-se rapaz, o rebento... Era esperado!

E continuou me surpreendendo

no curso de sua juventude

pois que, numa decisão notória,

trocou a química pela história

e, mostrando-me atitude,

fez da história seu sustento.

Hoje, está completando trinta e três anos de idade – “a idade de Cristo”. Homem feito, tem sua casa, seu trabalho, suas convicções, seus sonhos, seus projetos, suas realizações... Enfim, sua vida! Por sorte, entendeu meus conselhos e não os seguiu. Fez o seu próprio caminho!

E eu fico feliz porque acredito que ele esteja realizando-se. Percebo nele, tanto quanto em Flávia, um brilho intenso no olhar quando comentam seus trabalhos.

Hoje, é homem feito, o rebento. Espero que realizado!

E com ele venho aprendendo

as curvas que a vida apresenta

pois que, apesar dos meus conselhos,

descartou este espelho

e venceu suas próprias contendas...

E, tomara, continue vencendo.

Parabéns Marco!!!

Se em uma época “rayconiffizava”

suas manhãs de domingo

“besamemuchando” seus ouvidos,

e entorpecendo seus sentidos,

só queria externar o que me passava:

a alegria de tê-los comigo.

Rio de Janeiro (RJ), 29 de janeiro de 2014.

Percebo que esse jeito irreverente,

um traço da minha personalidade

que eu gostaria de deixar esquecido

mas que ressurge, intermitente,

deixa vocês constrangidos

na presença de amigos

e, muitas vezes, até a mim surpreende.

Apesar do avanço da idade,

tento controlá-lo, mas não consigo –

ele escapole contra minha vontade –

e, do nada,

quase sem eu perceber

lá se foi um escárnio, um deboche, uma piada.

Provavelmente, esse meu jeito

já me trouxe inimizades

mas sei que não sou perfeito

e nunca tentei ser.