Ando me espezinhando muito quando, caminhando nas ruas daquilo que designamos em algum momento “metrópole”, presto atenção ao meu redor, embora este gesto seja cada vez mais raro - sintoma indelével da insensibilidade crescente para coisas outras que não o nosso próprio umbigo (este tom impessoal que segue é um artifício discursivo de anonimato, daí que em meio a tantos, me eximo). Pessoas enegrecidas pela fuligem urbana olham-nos piedosamente e crêem-nos salvadores de seus problemas- ao menos momentaneamente- Dá um trocado aí?, meninas e meninos cheiram cada vez mais cola, cada vez mais cedo. Assaltos a ônibus? Desconheço pessoa que não tenha passado por, no mínimo, um. O caos desordenado, desigual, excludente, batizado como progresso - adoro estes eufemismos liberais!- cada vez se assoberba mais nas ruas empoeiradas do Grande Rio ou qualquer outra coisa que seja demasiadamente grande para ser caótica, binômio comum na modernidade capitalista.
E as criancinhas de sinal? Sim. Aquelas que vendiam, até bem pouco, balas, doces, ou qualquer bugiganga que pudesse ser comercializada ao tempo que pedestres atiram-se sobre os carros. Agora deleitam-nos, no breve intervalo do vermelho, com suas habilidades malabares. Todos, exagerando-se. Se pudéssemos exemplificar uma transformação em massa, projeto de homogeneização mesmo, este seria indubitavelmente um ótimo exemplo: todos os pequenos antigos vendedores de rua menores de idade passaram agora a malabaristas. Não que eu tenha algo contra a arte, ou a rua, ou aos meninos. Mas imagino que esta súbita transformação tenha origens nesta mesma incômoda realidade, a qual tangenciei irresponsavelmente acima, que nos angustia, sufoca, e até mesmo faz-nos agir. Ressalto: agir. Nem que seja para conservar.
Já construo até mentalmente a cena da pequena e profunda transformação: num destes fins de tarde em Botafogo, naquele tráfego simplesmente infernal da São Clemente (poderia ser na Voluntários também), “o tio” cansou-se de ver-lhe oferecido balas, chicletes, chocolates, por aqueles meninos que parecem cultivar uma coriza eterna na narina direita. Pensou, como pensa a sociedade em geral, para si mesmo: por que não transformar estes “potenciais marginais” em praticante de uma arte circense? Estes eram os termos do pensamento porque o tio era de direita - fosse de esquerda mudavam-se os termos, só os termos - participante de uma destas ONGs explicitamente governamentais que mantém laços estreitos com os centros de poder. Pegou o seu celular e, com três ligações, informou a tantos outros tios de direita como ele, desta pequena e repentina idéia de transformar o horror em algo mais agradável. O tio ainda se irritou com impertinência de um menino que, durante uma das ligações, ousou-lhe oferecer uma lavadela no vidro do carro, irritação condescendente, destas que toda mãe lança quando olha duro para seu filho repressora, mas diz calada e enternecida: é para o seu próprio bem.
Daí pra frente tudo bem imaginável: lá se vão os voluntários vestidos de branco, ou preto - com inscrições que clamam a paz: basta!, Chega!, Paz!, Gabriela! E outras palavras que se ensimesmam - cheios de piedade no coração, vieram eles retificar a exclusão destas párias de uma forma sui generis: oferecendo-lhes uma ocupação, a mídia arma-se, a sociedade se organiza. Mobilização esta que de benevolente nada tem, é a mais excludente e perversa justamente por não sê-la, aparentemente. Nos meandros, deixa claro qual o limite que essa sociedade imputa a estas crianças: serem objetos de contemplação distantes, que reforcem a nossa sensação de impotência e comodismo, de preferência de forma anestésica - lembre-se: sua infelicidade é culpa tua exclusivamente, há sempre pessoas mais fudidas que você. O assistencialismo redunda na salvação. Agimos.
Separadas da gente por um vidro, de preferência reforçado, e ar condicionado para aturar o calor que faz lá fora, agora não mais tomamos um soco no estômago cada vez que um menininho se aproxima e nos pede um trocadinho.
Impassíveis, assistimos as bolas lançadas ao ar - parecem bem as nossas vidas, que sorte terão?- uma duas três quatro, chão, perna aqui, braço lá, pirueta, chão, corre pra lá, toc toc, R$0,37, se aproximam, breve tremor, oi , mão estendida sorriso no rosto, não, chão, chão, chão, sinal verde até mais. A imagem deletéria é descartada na primeira paisagem, outdoor, cruzamento ou corpo agradável. Assim, como tudo hoje em dia, imediatamente descartável. Seguimos nosso rumo, uma falsa sensação de bem estar nos invade, um sorriso ensaia-se no canto da boca, facilmente reprimidos seguimos nosso rumo, para onde for isto, adocicados: amanhã tem mais espetáculo do horror.
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