Este conto foi escrito há quase dez anos atrás, por duas pessoas: a minha (parte I) e a do sr. Eduardo d`Avila (parte II) ...
I
Eram cinco da manhã e aquela festinha já tinha acabado, todos saiam daquele salão com uma alegria fácil, barulhenta e expansiva - corriam o risco de acordar os vizinhos! - provocada pelo regaço na cerveja e o excesso de aperitivos que se manifestavam não só pelo vigorosa disposição dos convivas como pelo cheiro ocre que permeava o ambiente. Naquele salão poucos se conheciam realmente, mas neste momento, é possível dizer, todos se amavam ternamente. Abraços efusivos e demorados acompanhados dum “eu te adoro” ou “como a gente não se conheceu antes” são provas cabais disto que digo. Ali, logo no canto, parado ao lado do congelador das bebidas que ainda sobravam, sobressalentes e relegadas pela massa festiva, estávamos nós, eu e Bartolomeu, que talvez fôssemos os dois únicos amigos verdadeiramente legítimos, ou seja, que já tinham uma amizade antes do recorrente fenômeno sobrescrito do etilismo amoroso. A festa tinha acabado, já disse, mas nós dois não fazíamos qualquer movimento no sentido de irmos embora, ao contrário, em silêncio quase torturante, bebíamos enfeitiçados quantas mais pudéssemos, esta era a nossa sina. A bem dizer, aquela movimentação de todos irem - se somente significava a impossibilidade das duas irmãs conseguirem sucesso em seu plano de escapar de suas "solterices", mesmo que para isso fosse necessário organizar uma festa à fantasia. A mal dizer, significava que, naturalmente todos os canhões estavam apontados para nós. Éramos dois, elas duas. Foi quando o silêncio interrompido com um grunhido que se tomou por “vambora” dada as circunstâncias e a atitude de Bartolomeu de levantar a tampa do congelador e sacar de lá de dentro 3 latinhas para cada um, atitude incomum mesmo se tratando da profunda compulsão do adicto em questão, devidamente escondida nos bolsos das calças, fez-nos movimentarmo-nos.
Fôramos a festa fantasiados, eu, no auge da minha criatividade, coloquei uma máscara pequena e feia do Batman tomada de empréstimo urgencial de um amigo cujo entendimento em festas do gênero é mínimo, que junto a uma blusa e capa pretas compunham o meu tosco personagem. Bartolomeu, ao contrário, dedicou-se arduamente na composição de seu figurino: um surfista – pescador. No que isto consistia? Não sei bem, mas posso descrevê-lo para vocês. Uma peruca loira escorrida e desgrenhada se escondia por debaixo de um chapéu de palha, a blusa de xadrez e botão semi-aberta acompanhava uma calça jeans “pescando peixe” e por fim uma sandália de dedo finalizava esta atípica e chamativa figura branca de pele, ainda mais se comparado com a média das fantasias, todas muito precárias, onde se destacava um ser que, envolto a um saco preto, sugeria-nos estar de “lixo”.
Voltemos ao fim. Saímos sorrateiramente, eu já não tinha minha capa preta do homem morcego e o meu parceiro do crime também não sabia onde estava aquele chapéu de palha, descompostos, descemos as escadas e ao fim desta empreitada já contávamos com uma cerveja a menos, sorvida num longo hausto que permitiu-nos gozar do sabor ainda temperado de uma cerveja, sabemos bem que nesta hora cerva gelada é sempre um privilégio. Foi quando eu brilhantemente, diga-se de passagem, sugeri ao meu amigo a utilização, nos arrebaldes, de marijuana, obviamente que ele não negou como também não aceitou, já não havia condições nem para um ou outro, mas o fato é que estávamos nós sentados entre dois carros menos uma latinha, já sem grandes preocupações com os riscos que envolve uma operação desta, era um fino, nada mais, de um fumo que pegáramos instantes antes de irmos a festa, num morro que encontrava-se no trajeto casa do Bartolomeu – festa. Agora tomaríamos o sentido contrário, rumo a casa de Bartolomeu, já que eu morador de uma área inóspita em Jacarepaguá não contava com conduções/ condições de ir-me para casa.
Estávamos lá fumando, pouco se falava, muito sobre as mulheres da festa, A Sabrina, a Vivian, a Rafa e sua mini- blusa de tigresa, a Ju e sua fantasia de coelhinho, a Branca-de-neve, a chapeuzinho vermelho, a enfermeira, a sadô, já se confundia desejo e realidade, infância e puberdade, pouco importava porque nós estávamos era fumando sós. Olhos pequenos, pensamentos desconexos, partimos em direção ao ponto de ônibus no que saberíamos ser uma ingrata espera. Íamos para Jacarepaguá e dali onde estávamos poucos ônibus nos serviriam. O sol nascente e o cansaço fizeram-nos repousar debaixo daquela estrutura de ferro, um tanto inútil pr'aquilo que se propõe, pois se faz sol todos se bronzeiam, se chove se molham, mas útil para tantas outras coisas como encostar a cabeça e tirar um cochilo. Foi o que meu comparsa fez e quinze minutos após esta fisiológica decisão já era possível ver a baba correndo-lhe no canto da boca, sinal de sono profundo, quando ao longe se aproximava um ônibus que a minha miopia e teimosia em usar óculos não me permitia identificar qual. Desta forma, e ao ter certeza que a condução nos servia, busquei acordar o sonado para que pudéssemos ir. Fui muito delicado, com leves cutucões em seu ombro a maior reação do dorminte era virar a cabeça para o outro lado e continuar seus afazeres oníricos. Estava num dilema, tinha que acordá-lo ao mesmo tempo em que deveria fazer sinal para o autocarro parar. Tentei fazer os dois. Cutuca, dois passos a frente sinal, passos atrás, ei, cutuca, passos a frente, sinal, passos... o ônibus passou, ele não acordou, me emputeci.
Tomei a decisão de não deixá-lo dormir mais, não foi por birra, mas eu queria muito poder descansar também, não num ponto de ônibus conforme a opção de outrem, mas no seu devido lugar. Entre a decisão tomada e a execução do ato, há uma grande distância que só pôde ser minimizada com alguns bicos na boca do estômago, para susto daqueles que a esta hora se alojavam no ponto rumo a seus trabalhos e viam um Batman ensandecido espancar um sonâmbulo esdrúxulo. Ele não acordou, se esta palavra for tomada ao pé da letra, mas o seu corpo em movimento possibilitou-nos adentrar num ônibus 269, pagar a passagem e desabar num banco, cada um num, que com o espaço de um lugar vazio ao lado e o sacolejo de uma serra, fez-nos adormecer a ambos, sonhei.
Freada brusca, guinada da cabeça, olhos entreabertos, onde estamos? Reconhecimento da área...ops, Bartolomeu! Passamos do ponto!! Já o ônibus ia arrancando, sacudi o ombro do meu anfitrião com uma força descomunal, dei o sinal de parada, Bartolomeu abriu os olhos, eu disse, novamente: “Passamos do ponto”, o ônibus parou, ele balançou a cabeça, não sei se por concordar ou se por Newton, mas eu fui andando em direção a porta de saída, desci a escada e esperei-o , o ônibus fechou a porta, arrancou e foi-se embora. Estava na rua sozinho e com sono, sem ter bem para onde ir e antes que fosse tomado pelo desespero, pus-me a caminhar em direção a casa do meu amigo que, eu já sabia disso, sempre permanecia de portas abertas.
Chegando lá encontrei o seu irmão Murilo indo beber água num daqueles interregnos que a sede provoca no sono, sempre benévolo, ele me perguntou onde estava o Bartolomeu, e eu, meio grogue respondi que tinha ficado no ônibus, ele então me olhou com uma santa complacência, desta que só os homens superiores conseguem ter por uma figura degradada por opção própria, e disse-me para eu deitar naquele alvo lençol macio e cheiroso, propício a um sono acumulado, pronto para ser encharcado pelos eflúvios e secreções que um corpo exala, mesmo em baixo metabolismo, quando se vai dormir às 8 da manhã com um sol de verão no rio. Tirei meus sapatos e blusa, a calça não, as meias uma , estiquei-me no colchão e adormeci...
Parecia sonhar com uma gritaria, uma balbúrdia se formava no pano de fundo do meu devaneio, interrompido por um copo de água na cara e bicos no tronco, fui despertado pelo surfista pescador, de face rubra e veias estufadas no pescoço que vociferava contra a minha pessoa palavras de ingratidão e desbunde, que esquecia de todo o cuidado que tive com ele, desde a cachoeira babal até o ponto em que saltei onde busquei despertá-lo de sua maldição. Quem mandou dormir como pedra? Mas meus argumentos não bastavam para conter a fúria descomensurada que o excesso de cerveja e umas voltinhas em Jacarepaguá provocava naquela pessoa. Seu irmão, em sua santa paciência, tentava demovê-lo da idéia de me matar e, pouco a pouco, ele foi se acalmando, enquanto me expulsava de sua cama e eu calçava os sapatos, um pé com meia o outro sem, vestindo a blusa do lado inverso, arrebentando aquele elástico vagaba da máscara de Batman, e pondo-me sorrateiramente para fora do quarto, atravessando a sala, indo a cozinha, ouvindo algumas injustas palavras sobre mim que o barulho da rua abafava. Nem fechei a porta, pus-me a andar sob aquele sol carioca, mais sofrível ainda quando se veste preto, que a incompreensão de meu amigo tinha me obrigado a enfrentar.
II
Lembro-me de, em fragmentos, ter adentrado o carro que nos conduziria para nossa área. Na realidade, estávamos a caminho da minha casa, pois Zeca não teria condições de viajar naquela manhã. O sono oriundo de psicotrópicos em demasia e acúmulo de horas acordado realmente prevaleceu no momento de saltar do ônibus. Ora!! O que fez então o nobre cidadão amigo? (ainda bem que meus inimigos não precisam dormir lá em casa!!!) Pois o que fez foi digno de um grande vacilão, não é mesmo? Não demoraram dez segundos para ele acompanhar o trajeto do ônibus, já do lado de fora, rumando para seu ponto final em Curicica. Sem marcar toca, pois é malandro como poucos, pôs-se a andar em direção ao conjunto habitacional, calculando de prontidão que portão e porta de minha residência permanecem abertas 24 horas por dia (não liguem, ainda não fomos assaltados). O que o levou de encontro ao meu bondoso irmão que, diga-se de passagem, fez questão de convocá-lo pra se deitar em MINHA cama. O zumbi agradeceu a compreensão do jovem que saía cedo, e desmaiou. Enquanto isto, em Curicica...
O calor insuportável daquela manhã me permitiu intuir a gravidade da situação. Onde estou? Onde está o...? Sem conseguir liquidar a questão de pronto, ainda bastante sonolento, desci do veículo e iniciei o reconhecimento geográfico. Eis que percebo-me no fim da linha; aliás, “linha” esta já perdida por nós naquela longínqua festa à fantasia. Diversas pessoas indo trabalhar, funcionários tipicamente uniformizados me olhavam com um olhar ao mesmo tempo repressor e invejoso porque, de fato, me pus a tirar um cochilo numa agradável sombrinha. Recobrei consciência mais segura não sei quanto tempo depois - as unidades de tempo confundiam-se àquela altura – e minutos ou horas adiante, indevida e ligeiramente descansado, ultrapassei os limites da leseira sem precedentes para, mesmo sem dinheiro no bolso, adentrar novamente a mesma condução (269 Curicica-Praça XV). Chegando em casa... Peço perdão aos mais frescos, não acostumados ao uso da violência em casos extremos, (porém sempre com conhecidos, lógico!), o que ocorreu foi um acesso de raiva e, sobretudo, “coisa de bêbado” minha para com Zeca Urubu!!
O passeio de volta ao lar me pareceu tranquilo, mas ainda me indagava incessantemente sobre o sumiço do amigo. O que teria acontecido? Será que ele foi para casa? Sabia não ser possível, seu recanto de moradia era realmente num canto, e por re-canto contem mais e mais cantos para lá se chegar, pois seu “sítio” ficava numa área arborizada cujo ar puro nos lembra Lumiar ou Friburgo. Morava numa área mais rural do que a que estamos habituados. Mas não, estive certo que não teria tido condições de seguir viagem ao seu logradouro. Que diabos!! O que aconteceu, afinal? Ao entrar em casa, logo na cozinha, meu parente termina seu café e prepara-se para seus afazeres matutinos quando, ingenuamente, noticia-me “O teu amigo está dormindo aqui em casa”. Mas....como... pera aí, e continuou para mim “Disse que você tava no ônibus e...”, ignorei o resto e fui correndo de encontro ao salafrário. Estava bastante incomodado com o fato de ter dormido num ponto em Curicica, para chegar no meu quarto e vislumbrar, babando em meu travesseiro e envolto em meus lençóis limpos, Zeca Urubu etilicamente desacordado!! Que filho da puta, óbvio, pensei na mesma hora!! Certo de que já estava bastante descansado, resolvi então cobrir-lhe de porrada, com socos e puxões até que saísse imediatamente de cima da cama. Quer dizer que você saltou no ponto da minha casa e, paralisado por encontrar-se só, decidiu cabalmente dormir lá mesmo, sem minha presença? Não passou pela sua cabeça bater no corpo do ônibus, alardar ao retrovisor o motorista? Não!! sem um leve pesar, o calhorda simplesmente ignorou o destino do amigo.
Enfim, brutalizado, o safado acordou com cara de espanto e, sem dizer nada, saiu saindo na hora. Não fosse por sua persona intelectualmente pseudo-comunista e libertária, e sabendo que, por ser aberta ao público, minha casa realmente nos incute a romper os padrões citadinos de “privacidade”, ficaria puto com ele um pouco mais do que uns vinte minutos. Ao fim do choque não recordo-me de mais nada a não ser verificar, tristemente, que já havia dormido o bastante para que pudesse descansar mais. No mais, consciente de que nada de grave, mas sim tragicômico, ocorrera naquela noite/manhã, estive certo de que esse episódio continha potencial cômico suficiente para um dia compor páginas em forma de conto. Ao longo dos anos, sequelamente, não mais associava à referida festa esta manhã sonolenta, mas sempre recordávamos a tosca historinha. Pois está agora, finalmente, configurada em um conto a quatro mãos.