Crõnica escrita no dia 30-04-2007.

Poderia ser uma raposa, era um senhor. O outro - criança de apartamento, enleve-se a ingenuidade e pureza, portanto - seria um cordeiro. Poderíamos ter um castelo, seus lagos e vales, uma ponte, muitos arbustos, um passado verde e desumano, mitos, Deus, distâncias físicas, animais falantes, monstros e bruxas, mais Deuses enfim. Mas ali era só um lugar humano, demasiadamente humano, em um prédio gradeado, filmado, guardado e armado ao pé do morro, cercado por comunidades beligerantes, individualizado em pequenos cubículos que se amontoavam em 6 blocos de apartamentos, 2 ou 3 quartos, quadras e piscinas, suas churrasqueiras e área ampla de lazer, coberturas panorâmicas, falta agora informar-lhes o preço e condições de pagamento que ao menos um objetivo este texto terá atingido, com agradecimentos da imobiliária. Mas o que nos importa é que naquilo havia um universo próprio, pois. Poderia ser muito, mas era isso o tudo, as fábulas se constroem de acordo com seu tempo.
Poderia ser uma raposa, já foi dito. Mas deveras fantástico eram aqueles menino e velho, guardadores de uma relação pouco comum contemporaneamente: afeto. Ele, mais idoso, era guardião do playground, palavra que define em um estrangeirismo grunhido aquela área comum que os pivetes de tenra idade, logo ao raiar do dia, já ocupavam com seus gritantes e lúdicos mundos, com suas bicicletas e bolas de variados tamanhos e cores. Seu Oscar- este o nome do ancião- era desses que guardava muito prazer por pouco tempo de prosa. E o menino, daqueles que adoravam as histórias, estejam nos livros ou mesmo no cotidiano, tinha dois olhos e dois ouvidos mais uma boca como todos nós - que em geral não nos apercebemos do fato - e por isso interessava-lhe muito mais ver e ouvir do que propriamente falar. Seu Oscar já beirava os 80 anos, tendo, portanto, ouvido e visto muito mais por este longo tempo de curtos anos, sua vida, restava-lhe agora, no fim, o desejo mais que compreensível de falar sem medidas. O assunto predileto era o futebol, debate que, não interessa a idade, sempre preenche as lacunas da comunicação masculina, ainda mais quando os interlocutores torcem para o mesmo time, era o caso.
Enquanto não se organizavam os times de futebol com bola de espuma, não se iniciava o pique esconde com walk talk, a polícia e ladrão com pistola de ar, a corrida - maluca com bicicletas - adventos da nossa sociedade cruel que através da tecnologia potencializa nos espíritos o que há de mais sádico e transforma as antigas brincadeiras de grupo em rituais irreconhecíveis e ao mesmo tempo prolifera os jogos de guerra para crianças, elas ganham ponto ao matarem o inimigo, pode ser um outro soldado ou mesmo um civìl, coitado, andando na rua - enquanto isso não acontecia, ele ia para aquele canto do play onde ouvia demoradamente as histórias de seu Oscar, muitas sobre o seu sobrinho que jogara futebol profissionalmente, algumas outras sobre a atualidade do time tricolor daquela cidade, discutiam arduamente quando seu Oscar expunha sua tese racista sobre vitórias e a proporção de negros no time, não é necessário dizer que seu Oscar era racista, dada a sua idade e a sociedade conturbada em que vivemos (que nega a suas origens como forma instantânea de apreender a auto-negação da vida), por mais que isso em última instância não fosse culpa sua, mais disto cujo nome civilização nos adorna e introjeta-se-nos, valores que não são nossos, palavras que ficam feias em nossa boca porque foram pensadas por outros em prol deles mesmos, coisas da ideologia dominante. Incrivelmente, não era comum o sr. reclamar das dores oriundas da idade para este menino, ou da falta de visão que lhe fazia confundir feições, ou da perda de audição, pois que gritava ao falar, estes assuntos, muito caros aos idosos, só se dão, se bem observar você, quando os matutos ancestrais não são instigados a falar de suas memórias, coisa que de tão ampla e rica, guardam em si o que há de mais legitimo no pensar humano que é a profusão de sonhos e vontades amalgamando-se a isto que chamamos de razão. Sim, tese. Também não era comum ao menino outra coisa que a paciência pois, incrivelmente - como tudo que há de não crível nesta fábula sem bichos afora a raposa e o cordeiro, que já foram - na nossa transviada sociedade, quanto mais tempo temos para nós, mais impaciente ficamos. Sentava-se ali, ao sopé da cadeira do vigia e aguardava aquelas doces palavras de sua voz que em dado momento soava como música, dançava pelo ar, voz doce e cansada de uma vida de duras penas, não fosse assim não seria vigia aos oitenta anos, deixando de ter somente sentindo sintático, mas ganhando em profundidade e melodia - quem nunca sentiu uma voz que fizesse cosquinha nos tímpanos? E ia-se pelas histórias, a se perder em memórias que emergiam, submergiam, se confundiam, trocavam de cores e sons, mas eram. E eram com um peso tamanho que até gozavam de prova: com a ajuda de uma seção a qual falava sobre as notícias de 50 anos atrás, mostrava ao rapazote os resultados dos jogos de antanho. Óbvio que isto cresceu na cabeça deste moleque, tão acostumado a um futebol de poucos espaços, muitas marcação e seres superdotados fisicamente com o que a medicina desportiva pode oferecer de mais inova - dor. 12x8, 7x4, 5x5, 11x3, o futebol não é mais o mesmo. Nostálgico, acusar-lhe-iam alguns, conquanto não seja palavra própria, pois não fora vivência do menino isto que tanto idealizava. Romântico, talvez, fosse o termo que melhor opera esta aproximação.
È efeito deste tempo que acostumamos a medir, cada vez mais veloz, com seus minutos, segundos, átimos, centésimos, milésimos, milionésimos, máquinas de fórmula 1, supersônicos, que por mais próximo que cheguemos nunca conseguimos apreendê-lo por todo. Este garoto e aquele velho guardam a tamanha distância entre um 13x5 e um 1x1, entre o ontem e o hoje. Este garoto cresce insensível às suas próprias mudanças e, ao não percebê-las, as naturaliza dizendo para si: “é assim mesmo”. Talvez queira agora ganhar dinheiro e medir pentelhonésimos de segundos, talvez pense avidamente em enriquecer, certamente quer hoje falar muito mais que ouvir, talvez escreva para libertar-se um pouco do peso da angústia enquanto torna a adicionar peso em sua prática cotidiana, ciclo vicioso, decerto não imagina terminar a vida como um guarda de play, terá menos histórias para contar, talvez ninguém para ouvir, onde o talvez é a coisa mais certa de todas, haja vista a incerteza que paira sobre épocas de instabilidade. É este tempo de conhecimento desenfreado e especializado, deste tempo corrido e pouco, destas multidões de solidões instantâneas, deste bando de indivíduos aparentemente desconexos, que quanto mais quebra o seu objeto, em sua percepção, em partes menores e menores, perde o que há de mais importante na análise: perceber a relação que as partes mantém entre si. Que os segundos mantém com os minutos, que os indivíduos tem com o coletivo, que os coletivos têm com os indivíduos, que os mais velhos mantém com suas histórias e com as outras pessoas, em geral. Estamos condicionados a esquecer aquilo que poderia nos transformar.
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