à época em que escrevi (2002) era uma crítica, que hoje sirva como homenagem, e desdizendo o que eu disse, a senilidade deste não apagou o seu brilhantismo, por mais que eu detestasse….
Bizarramente torto. Dos atributos possíveis, este talvez seja dos mais simpáticos que podemos atribuir ao malfadado Caminho Niemeyer, em especial a praça JK. Fruto da esquizofrenia de um arquiteto já senil e do dispendioso hábito pátrio de superfaturar obras públicas, da imiscuidade entre poder público e interesses privados, sintomático da pós - modernidade: o caminho referenda um novo entendimento de mundo - onde a menor distância entre dois pontos nunca será uma reta.
Quem já passou pela praça JK ao meio dia, com o sol a pino, sabe bem do que falo. O sol antes sobreposto as nossas cabeças a uma distância tolerável (lembremo-nos: estamos no Rio) agora paira também sob os pés dos transeuntes. É reflexo para todos os lados. Isto me preocupa, pois no exato momento que escrevo este texto, ouço a conversa de dois biólogos que dizem ao fundo (não para mim, mas o meu intrometimento capta) que Lamarck não estava tão errado como supunha Darwin. Não sei bem o que isto significa, mas a minha imaginação degradada já começa a projetar um futuro catastrófico, onde as gerações próximas de Niterói terão outro padrão de beleza, conformado a partir da quantidade de rugas que o rosto forma quando é franzido. Aquele branco predominante no chão, não me enganam!, é parte de um artifício subjetivo de imposição da ideologia hegemônica: ande torto!! Para não sofrer.
Isto sem falar que o projeto original prevê um passeio que se estende por grande extensão da orla niteroiense. O que significa tratar - se de uma obra feita especialmente para os turistas apreciarem. Não contavam, os idealizadores de tal proeza, com a crônica má educação do povo de Niterói, especialmente dos moradores de rua, que adotaram boa parte do caminho como sua residência permanente, enegrecendo com suas peles o alvo cartão que se embota, não obstante os esforços empreitados pela guarda municipal para evitá-lo. Não sendo o turista um antropólogo ou coisa do gênero, os atrativos da Pça JK se redundam a … nada.
É perceptível o desagrado que é caminhar através da obra pública de cimentos e pedras, típica do nosso maior arquiteto, sem nenhuma sombra natural, sob uma passarela cujo teto vira e mexe carece de novas telhas, teimosia da natureza que venta, inépcia do homem que projeta, deleite do político que orça, sorriso do empreiteiro que recoloca, recoloca, recoloca. Não há um semblante que inspire outro sentimento senão o ódio, este tão renegado e praticado por nós ocidentais numa clara demonstração de uma das nossas mais abnegadas contradições: a distância entre teoria e prática. Já são três as gerações futuras de Niemeyer condenadas coletivamente ao inferno, já ao próprio idealizador qualquer desejo desta ordem é mais uma benção do que maldição.
Alguns podem achar isto que insistentemente escrevo uma implicância imatura de alguém incapaz de entender uma obra de tamanha magnitude preferindo, assim, execrá-la. Falemos então de obras de arte, se me for possível, tratemos disto que o Rio de Janeiro está tão bem servido. Já nascemos, nós fluminenses, com um tino especial para a beleza, dada as riquezas visuais que nos reservam a cidade. Apreciador desta beleza, como tantos outros cariocas, certo dia resolvi fazer uma trilha da Floresta da Tijuca. Objetivo: um bom pico e boas fotos, um visual incomparavelmente belo e peculiar que as alturas auferem as nossas visões. Para um lado a praia da Barra, linda. Ainda mais desta distância onde não é possível mirar os tipos humanos que habitualmente freqüentam este local. Para o outro lado a grande zona oeste, uma imensa baixada se estende até o inatingível pelos olhos, uma paisagem bela se observarmos o contraste entre o recorte topográfico e a urbanização, o cinza contra o verde e marrom. Para lá a Bahia de Guanabara, a ponte e...
e?!!...
... e que ponto é aquele prateado agredindo os olhos? Que coisa monstruosa é esta que destoa completamente de tudo ao redor? Quem o autor de tamanha megalomania?
Lembrei-me da praça JK e de Niemeyer, do PT de Godofredo, do DEM de César Maia, Do Sérgio e dos Cabrais, das guerras em favor das empreiteiras do Eduardo, do FMI e suas recomendações sobre o superávit primário para os países em desenvolvimento, daquela branquidão que cega como um mar de leite (e agora José? Estamos mais doentes do que pensamos), daquela malquista passagem que serve de estacionamento coberto a carros, estes que merecem lugares mais aconchegantes do que nós, efêmeros mortais. Entristeço-me. Tudo parece estar invertido, sem sentido, mas não. A lógica do irracional é cruel e sepulta no homem suas possibilidades de escolhas e intervenção. Faz incompreensível aquilo que não deve ser questionado, sugere-nos um futuro inelutável, o fim da história e dos conflitos, questiona a universalidade das ideologias e é a mais ideóloga e universalizante de todas. Introjeta-se-nos pela TV. Esta lógica me dói. Não poderia aturar calado um monumento que- querendo ou não- representa uma homenagem a isto, do alto do silêncio do pico da Tijuca, gritei.
Nenhum comentário:
Postar um comentário