sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O reto torto


 


 

Ao nascer, aquilo provocou estranheza nos médicos à época, seus pais tinham bastante dinheiro, o que significa dizer que tinha cura. O seu problema de nascença poderia ser corrigido, desde que uma equipe de especialistas esclarecidos se debruçassem sobre o fenômeno, custariam-lhe o olho da cara consertar o olho do cu. Contudo seus pais, como todos aqueles que o são, não achavam que aquilo pudesse acarretar grandes problemas para a vida de seu filho, de modo que não buscaram ajuda. Daí que se passaram anos e anos e o Reto daquele menino continuava torto.

Até mesmo porque o problema só ficou configurado como tal depois dos 2 anos de idade. Enquanto usava fraldas tudo era tranqüilo. Seus pais, muito ocupados em ganhar dinheiro em suas companhias, mandaram trazer de longínquo uma mucama, negra e gorda, que deveria tomar conta dele. Assim, foi aos cuidados da negra até tenra idade. Logo após ele usar o sanitário para fazer o número dois, lá vinha ela, com um lenço perfumado no nariz e sacos cobrindo a mão, para limpar a esbarroada que se espalhava pelo azulejo. Aliás, só ia ao banheiro mesmo por costume constituído, era raro ele defecar em outro local que não no chão ao lado da privada. Problema engrandecido foi quando o menino passou a conviver com outros colegas, num colégio internato, e todas as vezes que as freiras vinham perguntar quem tinha cagado o banheiro todo, ele se encolhia vermelho-envergonhado e silencioso em sua cadeira. Passou a ter vergonha de si mesmo, achava que era a pessoa mais infeliz do mundo, não conhecia ninguém que tivesse o seu mesmo problema. E como todo infeliz doente, não buscava tratamento porque isto, em última instância, significava reconhecer seu problema perante os outros, algo inimaginável.

Aos poucos, o menino foi adquirindo uma técnica especial, onde entortava seu corpo todo, a fim de obter melhor mira sanitária. As mãos, uma na parede outra no chão, formavam um triangulo, a perna direita no bidê, a esquerda em suspenso, o tronco bruscamente inclinado para a esquerda fazia da cabeça outro ponto de apoio, quando a sua bochecha encostava o chão, permanecia assim até o fim, sorte não sofrer também de prisão ventricular. Cena realmente dantesca. Num embate corporal, se isso pudesse haver, podíamos dizer que sua cabeça 'pensante' era a favor daquele pitoresco reposicionamento defeco - corporal, maior vergonha seria para ela assumir um problema como este: "eu tenho o cu torto", não é frase que se saia dizendo aos quatro ventos impunemente, pensava. Se embate houvesse, suas mãos e pés se posicionariam a favor de uma mudança de mentalidade, uma solução permanente, não aquela encontrada pela cabeça, que lhes doía tanto, principalmente o pé esquerdo que, suspenso estando, não tardava por formigar.

Mas o homem e as sociedades são dados a soluções simplórias, já bem sabemos, e aos poucos o volume de merda que era retida pela privada foi aumentando, embora nunca tenha constituído mais da metade do bolo fecal, num claro apuramento da técnica antes descrita. Isto felicitou muito o nosso jovem, que já começava a se sentir um "cara normal", cagava nas privada como os outros, embora gastasse mais tempo no lavabo que o comum. Contudo, aquele tantinho de merda que ele conseguia pingar na privada cada vez mais imbuiu-lhe de um sentido de identidade que ele não tinha, devolveu-lhe a sua dignidade, fez com que ele se sentisse satisfeito consigo mesmo. Embora as mãos e os pés doessem pela postura e pelo trabalho posterior, a cabeça tinha se feito e assim era.

Agora vocês me perguntam: porque lhes conto esta infame história sem pé nem cabeça e com o esfíncter reposicionado? Porque, meus caros amigos e pacientes leitores, este jovem a quem me refiro é o Brasil, que desde seu nascedouro apresenta um problema de ordem excretiva -exportadora: o cu de nosso país é torto. Vivemos num país onde a elite 'pensante' - a cabeça- prefere, ao invés de solucionar os problemas, dar uma entortadinha pr´um lado, outra pro outro e se contenta com a pouca merda que lhes sobra, enquanto o povo cansado e anestesiado- mãos e pés (realmente tomei de empréstimo esta tenebrosa afiguração medieval) - põe-se a trabalhar para garantir esta escolha e, pasmen, limpar todo o restante da bosta que as elites espalham ao redor.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Tantra propriedade

A própria idade
dos homens
aprisiona,
a propriedade
apropria - ter.

Outra noite

Perdido no escuro e no vazio se encontrava
Seguia errante os mesmo passos que não lembrava
Angústia cortante constante depressão
Que não percebia porque sorria intermitentemente

Há quem diga que mente,
Há quem diga que sente
Algo como a solidão consumada.

Consumida em instantes fugazes,
Dinheiro, comida, bebida (bares),
Isqueiro, a vida esquecida (lugares)
Banheiro e idéias perdidas (na privada)

Lá ia ele sem nexo,
Caminhava perplexo
Pelo meio do saguão escorregava
Dentre as pessoas nunca dentro,
Pouca imensidão
Intensa superficialidade
Gracejo e sensualidade
Que sempre tropeçava.
No fio da piada sem-graça
Sem graxa e borracha
Apagava e continuava
Um pouco de si mesmo
Espalhados pelos muitos copos
que esquentavam em vão

E o pior, eu diria,
Era que ninguém percebia
Que naquela noite vazia
o que ele só queria era

compreensão com poesia.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Panfletopoéticomum


 

É poesia, sutileza e grosseira

Em meio à anestesia e o prazer,

Associa a idade pouca dos seres humanos,

E esquecemo-nos sempre: o quão humano é ser.


 

E se todo dia é esta muita pressa

Junto ao (p)(r)acional discurso da irracionalidade,

Sobra- nos pouca consciência e muita reza,

P´ra justificar o leilão de nossa surrada dignidade.


 

Contudo, não há espaço para os fatalismos

Aqui é a poesia panfletária das possibilidades

De que com sangue, organização, solidariedade e luta

Nós, oprimidos, construamos: a almejada liberdade!

domingo, 23 de janeiro de 2011

tanto tento

Tanto tento

“Cada tanto de valor,
Tem tanto o teu intento,
Quanto a tua dor:
Eu tento,
Amor. ”

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O só riso dança


 



 

Ela dança um sorriso morno

E canta com o passo aguado

O seu choro rebola seu corpo

Num copo, o pouco do agrado

O seu futuro apresenta o passado

Onde o tenro enrijece o doce

Pois o assunto conflita com o pacificado.


 

É um fardo e, que se isso não houvesse,

Não poderia aqui poesia ter chegado

Para tão somente falar do seu requebrado

Estampado em seu sorriso rouco

Tudo, parco e louco, portanto: encantado.


 


 


 


 


 

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

estou a mando do medo de ser amado

Poesia de aproximadamente 2 anos atrás,
serve?

DO MEDO DE SER AMADO

Do medo de ser amado
Fiz- me sozinho
Pus pedra onde era carinho,
Obstáculos onde era caminho
Das pétalas fui o espinho
E provo que estava errado
Com medo de ser amado.
Provo com o gosto amargo na boca
E com o cansaço da moça
Cujo amor me propus a conquistar.

Onde era alegria, fui fossa
Onde era funk, fui bossa
Onde era rosa, fui vermelho
Onde era amizade, fui pentelho
Te dei certeza, onde era erro
Toda a minha paixão e
Um pouco do meu destempero.

Hoje sobrou pedaços,
De recordações que serão pra sempre
E nelas você será pra sempre minha,
Fruto somente do meu muito querer
Por que hoje, eu sei, você já é mais
E saiba que você nunca estará sozinha
E, por mais que vc insista em dizer,
Eu sei bem, que isso nem tanto faz.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Gênesis.

- O que foi aquilo?
- foi um sonho.
E assim, puseram-se a andar, os dois, rumo ao escuro bem a frente. Sabiam das suas capacidades de sonharem acordados, de misturar mágica à realidade. Foi quando, como se os olhos se acostumassem com a escuridão, e aquilo que era sombra foi se esclarecendo.
- Temos sempre que olhar forte, para podermos enxergar. Às vezes, só com o tempo mesmo é que vemos - Disse ele.
E ela, mesmo na escuridão trocava olhares com ele, que não a enxergava, mas sabia que ela o olhava de soslaio e a retribuía. E era assim, havia entre os dois algo a se esclarecer, um assunto nebuloso, escuro e opaco, que eles só tratavam de forma tangencial e indireta. As palavras e invectivas, todas as vezes que foram ditas, agiam de forma mágica, mística, ajudando ou não, de acordo com sua objetividade, a esclarecer ou escurecer o ambiente.
Eles buscavam se acostumar bem com esta regra: de que ao falarem diretamente e objetivamente a si esclareciam o ambiente ou, se agissem de forma irônica, dúbia, ou até mesmo enganosa, acabavam por ajudar a escurecer tudo. Conquanto talvez não soubessem, tanto o escuro quanto o claro têm os seus mistérios, erros e acertos, dizem os mais velhos.
- Ao mesmo tempo que eu sonho e gosto, tenho medo da realidade - disse ela.
- Eu também. Vivo no mundo dos sonhos ou sonho no mundo dos vivos, não sei bem- foi o que ele respondeu.
- Até porque no mundo em que vivo tem pessoas que gostam de mim e não poderia abrir mão deste mundo sem magoá-las- disse ela.
E o silêncio dele, ou porque não tinha o quê dizer ou porque não queria, foi seu dizer mais expressivo.
Milhões de anos de silêncio e sombra se passaram.
- Só quero que você saiba- disse ele- que se eu não te pinto um quadro belo sobre um mundo novo é porque também ainda não o conheço, mas sei que um outro mundo é possível. Sinto o cheiro dele, como cheiro de chuva repentina em dia ensolarado: você começa a sentir o cheiro e não sabe explicar o porquê, mas sabe que choverá.
- E, de verdade, eu também não tenho certeza de muitas coisas – ela disse.
- E como haveremos de ter certeza sobre algo que ainda não existe? - foi o que ele pensou, mas não disse, e esta sua atitude indevida de não dizer, omitir, deixar de falar e transparecer teve seu efeito estrondoso. Uma névoa se assentou sobre os dois de modo que eles pouco se enxergavam, não conseguiam se ver mais, nem em vulto. Ele tonto, buscou com o tato a presença dela, e não a achou. Ela, temerosa, fez de volta o seu caminho já conhecido, sua rotina, e voltou para o seu mundo. Não era felicidade, mas de alguma forma ela se sentia confortável por presumir que tudo estava sob seu controle, tão diferente da incerteza, insegurança e do charme do novo e do desconhecido que ele representava.
Neste ínterim, enquanto a procurava, ele vagou por estradas obtusas, escarpas perigosas, andou por desfiladeiros mortais, perdeu importantes amigos, dormiu ao lado de plantas tóxicas, conviveu com animais selvagens, enfrentou o deserto e o mar, a chuva e a falta d´água mas quem acha que ele sofria com isto tudo ou não sabia bem onde encontrá-la, se engana. Na verdade, com tudo isto ele se fortalecia, buscava criar em si a força necessária para ultrapassar a barreira da escuridão e mesmo sob o risco de errar: tentar. Tentar aquilo que desejava, tentar aquilo que tanto queria para si, mas que ainda não havia tentado graças a alguns pormenores que ele chamava de ético. Têm estas dificuldades as pessoas de princípios.
Reencontrou – a em algum canto deserto do mundo dela e desta vez com toda a força acumulada, foi incisivo. Falou de modo claro e objetivo, e chovia, e enquanto falava e ela ouvia e desejava, viram abrir botões de flores na areia, aos poucos levantaram - se árvores, sob seus pés molhava-se a areia que se transformava em terra e, em tempo, viu-se surgir um rio, os pássaros já cantarolavam, enquanto peixes e golfinhos saltitavam felizes. A chuva foi parando, o cinza se esvaindo, ele se aproximou dela, calado, não havia mais palavras que expressassem o sentido de tanta magnitude, as palavras ali seriam caixinhas de conceitos diante da imensidão do mar, que também surgiu mais a frente, bem como as cordilheiras se engrandecendo atrás, de olhos fechados conseguiram perceber as nuvens se desfazendo e, ao tocarem os lábios um do outro, sentiram a força da luz que se formava com o sol, gigante e próximo como nunca esteve.
A luz foi feita e, neste instante, surgiu o mundo.