segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Do ciclo da limpeza- ou a dialética do pano de chão.

Ter me tornado “dono da casa” após os trintas tem lá as suas vicissitudes mas tem também as suas benesses. Aquilo que, para alguém que foi criado sob a lógica dos afazeres domésticos desde o mais cedo silabar até a sua chegada a maturidade, tem certamente- com estes afazeres - uma naturalização e naturalidade que não é típico daqueles que, como o meu caso, foram lançados em meio a “imundice” produzida pela síntese do despreparo cultural e social e com a compulsão – completamente descartável e amontoadora – sobre produtos que de nada servem além de nos suscitar uma passividade que nada arruma, “imundice” esta que pode ser denominar o caos que é a nossa própria existência de homem solteiro aos trinta anos.

E isso acarreta, para aqueles que tardiamente se tornaram “donos de casa” uma racionalização sobre os processos a fim de apreendê-los por completo. Descobrir a complexidade que é lavar um simples chão de cozinha, ver complexidade naquilo que parece simples, é algo que só mesmo esta adaptação abrupta permite reparar.

Encerrando as divagações, vamos aos fatos, estes que são a fonte das ilustrações caricatas que são as teorizações. Decerto que me perguntas: mas que mistério tem, lamarão, em lavar a porra de um chão? Que de tão formulado e refinado tem em buscar-se uma vassoura que varre e um pano que limpa, e aplicar-lhes ao chão, com os devidos produtos, cada qual em seu tempo? Nenhum mistério ... e esta seria a resposta useira.

Depende, responderia eu, com cara de professor de história metido a filósofo, que se põe a indagar o óbvio e dele extrair afirmativas que Raul Seixas duvidaria, tamanha a inventividade. E com cara de convicção, reitero, depende sim. Afinal se você for uma leitora, os imperativos sociais já te estimularam a, um milhão de vezes, incutir em si tal processo, que o tens como natural, isso, muito provavelmente, se a história de cada uma em particular dialogar com o modus operandis da sociedade machista. Mas se pelo contrário, tiveste o azar de, como eu, nascer homem e um tanto mais imbecil do que as demais, verás que lavar o chão envolve uma lógica pra lá de aristotélica, pós-hegeliana, diria.

Isso porque falo tão somente de lavar um chão de cozinha, desconsiderando toda a série de atividades que compreende os afazeres domésticos que vão desde fazer a comida, como varrer o teto- sim o teto!- passando por deixar as janelas limpas e as roupas passadas, contando tão e exclusivamente consigo próprio como aliado e- por vezes infortunas- outro tanto de pessoas como adversários nesta empreitada, mormente chamadas de: família.

Mas voltemos pro chão, pois de lá que começamos tudo.

Pois o primeiro fator a ponderar é, qual o tipo de limpeza que se quer no chão da cozinha, se é a limpeza superficial ou a limpeza profunda. Se for a primeira- (sim, opto pela primeira para encurtar já alongado texto), primeiro deve-se varrer o ambiente alvo-inimigo. Posteriormente, preparar um balde com desinfetante e um pano que não esteja sujo, feito isso, aplique o pano no chão, após aplicar o pano úmido, aplique um pano seco a fim de diminuir o tempo de secagem e inviabilizar por um dia uma simples ida a cozinha sem um pé-preto-desperta-neura no meio do piso de cerâmica. Este, aliás, que vc deve torcer pra ser bege, porque se for branco, multiplica todo este esforço por dez. Simples? Não, pois não acabou, terminado todo este processo agora é necessário o caminho dialético da limpeza, ou seja, limpar aquilo que usaste justamente para limpar: daí que se faz necessário lavar o pano (sério, faça na hora, nada mais prático na vida do lar do que arrumar enquanto faz), tanto o seco- que óbvio não está mais seco- quanto o molhado, lavar a pá, desempoeirar a vassoura, limpar o balde e feito tudo isso, vc tem findo o seu simples processo, sem contar que o lixo que varreste deve ser posto no lixo e que este lixo remetido a lixeira. Mas essa técnica superficial tem o inconveniente de não lavar debaixo da geladeira e do fogão com a mesma eficácia. Para tanto seria necessário a técnica do balde com sabão e arrasta eletrodomésticos, acho eu, deixemos esta para outra oportunidade.

Por fim, limpado o que usamos pra limpar, nada mais justo do que aprofundarmos este processo e, ato contínuo, tomarmos um banho com vistas a higienizar o próprio corpo. Mas, estou propenso a crer que o homem que limpa o próprio chão, o faz dando um banho na sua própria alma, pois muito mais eficaz do que mil palavras retóricas, põe em prática uma importante lição de combate ao machismo. Este simples ser pode nem perceber, mas é, por vezes, muito mais feminista do que aqueles que com palavras bonitas floreiam os seus gestos inférteis, pois ocos de autotransformação. Estes, não tomam para si como importante a tarefa de lavarem o seu próprio chão.