Hoje resolvi me despedi de tudo o que fui. Acabou-se em mim as épocas das fanfarronices e bonanças, das mulheres e ratarias, das putas que nunca tive e sempre me vangloriei, dos amigos de ausências em bares, das pessoas falsas e medíocres que eu sou também, da hipocrisia e reificação, das drogas desenfreadas e roubos, das perdas propositais, da minha incapacidade de ouvir, do meu sorriso frouxo, do meu olhar cego e vazio, do vácuo que há em mim refletido, da minha falta de conteúdo e esperança, do meu ego, das falcatruagens rapinescas e sujas, das minhas celas e grades, dos meus preconceitos ocidentais e imbecis, da minha incorreção, dos valores burgueses introjetados e vividos como natural, da minha tosca vaidade orgulhosa, da minha busca infrutífera e egoísta de amainar minhas dores dividindo-a com os outros que no final pouca culpa me cabe, das pontadas urrantes da minha narcotização pelas ideologias furadas e pelas furadas ideológicas, da minha pouca materialidade e concretude, da bagunça de minha casa, do meu lado social podre de poder e não conseguir ser aquilo que desejo para mim, da minha contemplativa indignação, da minha acomodada compaixão para com as causas alheias, das negações relutantes das minhas mais ásperas contradições, do meu esconderijo que me faz restar somente em aparência, da minha parca imaginação, da minha rasa espiritualidade, dos meus relacionamentos mesquinhos, dos meus amores enclausarantes e sufocador, se for para ser assim prefiro não, da minha falta para com as pessoas que eu amo, da minha falta de compromisso comigo e com os outros, do meu sadismo, da minha ironia pouca e agressiva, da minha incapacidade de dizer o que sinto porque temo me ferir e não conseguir, do meu desejo de sempre ser vítima, da minha adocicada e relaxante frustração alienada, das minhas alternativas individualizadas e estéreis, da minha rouquidão e tosse: já estou doente- quem não está?- e essa doença se desenrola em outras e se chama submissão, por mais que eu acredite e propague o contrário. O que são as palavras senão torrentes intermináveis de sentimentos que não existem fora de sua lógica intrínseca senão para quem enuncia? Mensagem retesada que emana, senão inteira, ao menos totalizada e chega ao outro fragmentada e perdida, como nós e nossas relações. Língua que serve hodiernamente para justificar-nos e obnubilar a percepção de nossos legítimos impulsos e lugares. Somos línguas intangíveis. O que somos nós além da verdade e mentira que temos para conosco? Eu tenho sido mentira. Não há, definitivamente, mais salvação para um pobre e baixo espírito como o meu. Reconheço-me como um burguês, sempre fui apenas mais um disso, hoje serei um a menos.
Blog de cunho pessoal, textos, poesias, material, análises, ensaios, vídeos, audios e artigos produzidos pela minha pessoa estarão aqui.
domingo, 15 de janeiro de 2012
FIM
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Vou encontrar provas contra ti neste blog? Dirás abertamente o q escondes por conveniências assim? Huuuuummm... adorei tua insurreição!!!! Terás todo o meu apoio. Não temas mais nada q te impeça o Ser.
ResponderExcluirQue texto forte!É muita coisa pra matar de uma vez só , será que eles não se tornam zumbis na alma ou se transfiguram em características mais elevadas? Adorei as provocações!
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