domingo, 17 de fevereiro de 2013

sem ti, ser só.

Poesia de 15 anos atrás

 

Aprender com a dúvida

É rescrever a certeza

Sentir-se aflito, acirrar o conflito

Para agir com firmeza

 

Se o coração pede e a mente impede

O não intercede e castra a emoção

É aí que se mede o quanto se perde

De nos impedirmos de viver uma sensação

 

Viver, cada segundo tão intensamente

Abster-se da culpa

Desligar sua mente

Um motivo mais que convincente

Para ser-se na vida, assim de verdade.

 

Mas se só se satisfazes com aquilo que teima em não existir

Cabe a ti refazer tua realidade,

Não desistir e insistir

na responsabilidade de ser feliz

 

E se a lágrima te molha a confiança

Tente dançar tal e qual a criança

E se embeber da esperança

De quem a perder não tem mais nada

Pois não existe angústia pior

Do que sentir-se só

Mesmo estando acompanhada

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Obra em gado

Obrigado pelo sorriso no gol do adversário

Obrigado pelas vezes que reclamaste da minha roupa

Obrigado pelo tom com que gritaste comigo, em público

Obrigado pelo sarcasmo do elogio e pela censura do olhar

Ou quando me reprimiste quando infantilmente tentei me soltar

Obrigado por ter me abrigado, no teu sofá

Obrigado por, depois de tudo, não ter conhecido os meus sobrinhos

Nem ter frequentado a casa dos meus irmãos

Obrigado por não me ter apresentado à sua família

Obrigado por ninguém saber de verdade o que sou pra vc

Obrigado, mas muito obrigado, que toda vez que te fiz ou  pedi algo

Ou fingir que não, ou viu, ou logo tratou de esquecer.

Obrigado pela sua ausência quando quis tua companhia

E principalmente de ter me virado as costas na hora da agonia

Aprendi, muito, principalmente em acreditar que o amor é possível

Pois amei, tentei, mas não aguentei, mesmo a paixão tem um quê de risível

E agora torno visível, toda a minha gratidão

Só que não.

sem palavras

Palavras carentes de atitudes

são tal e qual saco vazio

voam tortas e logo somem

tão rápidas quanto iludem.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Dadivisão

 

Vamos que estou indo

Para mais um ano

De novo passagem e rito

De infinitos planos

Para tempos finitos

de rua e de panos

fileiras e bandeiras!

 

Pra feios e bonitos momentos

Onde mormente direi: movimente-se

E reclamarei do seu parênteses

Se nele não houver ensinamentos

 

Que nos faça sair do confinamento

Desta individualidade bigbrotizada

Em cada passo um tormento

Pois que dói a consciência recobrada

 

Afinal, ela foi retirada da lancinante branquidão

Lá, jogada em meio as traças e às verdades fragmentadas,

Que fizeram da falsa incoerência seu chão

No lugar onde as mudanças minam

Quando homens e mulheres se indeterminam

 

Que indeterminação que nada!

Vamos que te chamo, pois que tenho percebido

Enquanto continuo andando

Aprendendo, ensinando e seguindo:

que a melhor forma de multiplicar

é buscar sempre estar dividindo.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Se o meu.

 
Não, este sentimento não
Que traz o teu sorriso ardiloso
E tua falta de informação
E teu jeito tinhoso,
De no pecado fazer oração.
 
Mas esse sentir doloroso
Que nem me deixa dormir
Me fazes repetir, em tom panfletário,
Queria ver se fosse o contrário
 
Eu na chuva e você em casa,
A vida vista em duas cores
Enquanto o meu papo em brasa
Acalenta companhia de ex- amores
 
E tarda hora e noticia alguma
E meu torpor já não é mais discreto
Tento contato e a noite se apruma
Procuro acalmar o meu espirito inquieto
 
Que ano após ano, não perde os seus costumes
Em segura alma, não cabe num tanto de ciúmes.






















quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

My ara




Há tempos em que nos ensimesmamos
Há tempos em que sou menos
Mas neste tempo
menos nos amamos
Ou muito menos, ou menos anos
anual mente tanto que devo dizer
que o que me Importa é sempre me
 reler reler reler 
pois sou isso por fora
depois de muito tempo
depois de muito tento
tentei  e consegui
vislumbrei   a grande mulher
e segui
e ela me pôs a
ler-re, ler -re, ler-re
de um ponto a outro 
se aprumar
a ponto de me aprontar
pois estou pronto, agora!
aqui no meu lugar
não me importa!
já que pro que de resto  de mim sobrar
tendo do meu lado a ti, vambora!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Niemeyer

 

à época em que escrevi (2002) era uma crítica, que hoje sirva como homenagem, e desdizendo o que eu disse, a senilidade deste não apagou o seu brilhantismo, por mais que eu detestasse….

Bizarramente torto. Dos atributos possíveis, este talvez seja dos mais simpáticos que podemos atribuir ao malfadado Caminho Niemeyer, em especial a praça JK. Fruto da esquizofrenia de um arquiteto já senil e do dispendioso hábito pátrio de superfaturar obras públicas, da imiscuidade entre poder público e interesses privados, sintomático da pós - modernidade: o caminho referenda um novo entendimento de mundo - onde a menor distância entre dois pontos nunca será uma reta.

Quem já passou pela praça JK ao meio dia, com o sol a pino, sabe bem do que falo. O sol antes sobreposto as nossas cabeças a uma distância tolerável (lembremo-nos: estamos no Rio) agora paira também sob os pés dos transeuntes. É reflexo para todos os lados. Isto me preocupa, pois no exato momento que escrevo este texto, ouço a conversa de dois biólogos que dizem ao fundo (não para mim, mas o meu intrometimento capta) que Lamarck não estava tão errado como supunha Darwin. Não sei bem o que isto significa, mas a minha imaginação degradada já começa a projetar um futuro catastrófico, onde as gerações próximas de Niterói terão outro padrão de beleza, conformado a partir da quantidade de rugas que o rosto forma quando é franzido. Aquele branco predominante no chão, não me enganam!, é parte de um artifício subjetivo de imposição da ideologia hegemônica: ande torto!! Para não sofrer.

Isto sem falar que o projeto original prevê um passeio que se estende por grande extensão da orla niteroiense. O que significa tratar - se de uma obra feita especialmente para os turistas apreciarem. Não contavam, os idealizadores de tal proeza, com a crônica má educação do povo de Niterói, especialmente dos moradores de rua, que adotaram boa parte do caminho como sua residência permanente, enegrecendo com suas peles o alvo cartão que se embota, não obstante os esforços empreitados pela guarda municipal para evitá-lo. Não sendo o turista um antropólogo ou coisa do gênero, os atrativos da Pça JK se redundam a … nada.

É perceptível o desagrado que é caminhar através da obra pública de cimentos e pedras, típica do nosso maior arquiteto, sem nenhuma sombra natural, sob uma passarela cujo teto vira e mexe carece de novas telhas, teimosia da natureza que venta, inépcia do homem que projeta, deleite do político que orça, sorriso do empreiteiro que recoloca, recoloca, recoloca. Não há um semblante que inspire outro sentimento senão o ódio, este tão renegado e praticado por nós ocidentais numa clara demonstração de uma das nossas mais abnegadas contradições: a distância entre teoria e prática. Já são três as gerações futuras de Niemeyer condenadas coletivamente ao inferno, já ao próprio idealizador qualquer desejo desta ordem é mais uma benção do que maldição.

Alguns podem achar isto que insistentemente escrevo uma implicância imatura de alguém incapaz de entender uma obra de tamanha magnitude preferindo, assim, execrá-la. Falemos então de obras de arte, se me for possível, tratemos disto que o Rio de Janeiro está tão bem servido. Já nascemos, nós fluminenses, com um tino especial para a beleza, dada as riquezas visuais que nos reservam a cidade. Apreciador desta beleza, como tantos outros cariocas, certo dia resolvi fazer uma trilha da Floresta da Tijuca. Objetivo: um bom pico e boas fotos, um visual incomparavelmente belo e peculiar que as alturas auferem as nossas visões. Para um lado a praia da Barra, linda. Ainda mais desta distância onde não é possível mirar os tipos humanos que habitualmente freqüentam este local. Para o outro lado a grande zona oeste, uma imensa baixada se estende até o inatingível pelos olhos, uma paisagem bela se observarmos o contraste entre o recorte topográfico e a urbanização, o cinza contra o verde e marrom. Para lá a Bahia de Guanabara, a ponte e...

e?!!...

... e que ponto é aquele prateado agredindo os olhos? Que coisa monstruosa é esta que destoa completamente de tudo ao redor? Quem o autor de tamanha megalomania?

Lembrei-me da praça JK e de Niemeyer, do PT de Godofredo, do DEM de César Maia, Do Sérgio e dos Cabrais, das guerras em favor das empreiteiras do Eduardo, do FMI e suas recomendações sobre o superávit primário para os países em desenvolvimento, daquela branquidão que cega como um mar de leite (e agora José? Estamos mais doentes do que pensamos), daquela malquista passagem que serve de estacionamento coberto a carros, estes que merecem lugares mais aconchegantes do que nós, efêmeros mortais. Entristeço-me. Tudo parece estar invertido, sem sentido, mas não. A lógica do irracional é cruel e sepulta no homem suas possibilidades de escolhas e intervenção. Faz incompreensível aquilo que não deve ser questionado, sugere-nos um futuro inelutável, o fim da história e dos conflitos, questiona a universalidade das ideologias e é a mais ideóloga e universalizante de todas. Introjeta-se-nos pela TV. Esta lógica me dói. Não poderia aturar calado um monumento que- querendo ou não- representa uma homenagem a isto, do alto do silêncio do pico da Tijuca, gritei.