quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Niemeyer

 

à época em que escrevi (2002) era uma crítica, que hoje sirva como homenagem, e desdizendo o que eu disse, a senilidade deste não apagou o seu brilhantismo, por mais que eu detestasse….

Bizarramente torto. Dos atributos possíveis, este talvez seja dos mais simpáticos que podemos atribuir ao malfadado Caminho Niemeyer, em especial a praça JK. Fruto da esquizofrenia de um arquiteto já senil e do dispendioso hábito pátrio de superfaturar obras públicas, da imiscuidade entre poder público e interesses privados, sintomático da pós - modernidade: o caminho referenda um novo entendimento de mundo - onde a menor distância entre dois pontos nunca será uma reta.

Quem já passou pela praça JK ao meio dia, com o sol a pino, sabe bem do que falo. O sol antes sobreposto as nossas cabeças a uma distância tolerável (lembremo-nos: estamos no Rio) agora paira também sob os pés dos transeuntes. É reflexo para todos os lados. Isto me preocupa, pois no exato momento que escrevo este texto, ouço a conversa de dois biólogos que dizem ao fundo (não para mim, mas o meu intrometimento capta) que Lamarck não estava tão errado como supunha Darwin. Não sei bem o que isto significa, mas a minha imaginação degradada já começa a projetar um futuro catastrófico, onde as gerações próximas de Niterói terão outro padrão de beleza, conformado a partir da quantidade de rugas que o rosto forma quando é franzido. Aquele branco predominante no chão, não me enganam!, é parte de um artifício subjetivo de imposição da ideologia hegemônica: ande torto!! Para não sofrer.

Isto sem falar que o projeto original prevê um passeio que se estende por grande extensão da orla niteroiense. O que significa tratar - se de uma obra feita especialmente para os turistas apreciarem. Não contavam, os idealizadores de tal proeza, com a crônica má educação do povo de Niterói, especialmente dos moradores de rua, que adotaram boa parte do caminho como sua residência permanente, enegrecendo com suas peles o alvo cartão que se embota, não obstante os esforços empreitados pela guarda municipal para evitá-lo. Não sendo o turista um antropólogo ou coisa do gênero, os atrativos da Pça JK se redundam a … nada.

É perceptível o desagrado que é caminhar através da obra pública de cimentos e pedras, típica do nosso maior arquiteto, sem nenhuma sombra natural, sob uma passarela cujo teto vira e mexe carece de novas telhas, teimosia da natureza que venta, inépcia do homem que projeta, deleite do político que orça, sorriso do empreiteiro que recoloca, recoloca, recoloca. Não há um semblante que inspire outro sentimento senão o ódio, este tão renegado e praticado por nós ocidentais numa clara demonstração de uma das nossas mais abnegadas contradições: a distância entre teoria e prática. Já são três as gerações futuras de Niemeyer condenadas coletivamente ao inferno, já ao próprio idealizador qualquer desejo desta ordem é mais uma benção do que maldição.

Alguns podem achar isto que insistentemente escrevo uma implicância imatura de alguém incapaz de entender uma obra de tamanha magnitude preferindo, assim, execrá-la. Falemos então de obras de arte, se me for possível, tratemos disto que o Rio de Janeiro está tão bem servido. Já nascemos, nós fluminenses, com um tino especial para a beleza, dada as riquezas visuais que nos reservam a cidade. Apreciador desta beleza, como tantos outros cariocas, certo dia resolvi fazer uma trilha da Floresta da Tijuca. Objetivo: um bom pico e boas fotos, um visual incomparavelmente belo e peculiar que as alturas auferem as nossas visões. Para um lado a praia da Barra, linda. Ainda mais desta distância onde não é possível mirar os tipos humanos que habitualmente freqüentam este local. Para o outro lado a grande zona oeste, uma imensa baixada se estende até o inatingível pelos olhos, uma paisagem bela se observarmos o contraste entre o recorte topográfico e a urbanização, o cinza contra o verde e marrom. Para lá a Bahia de Guanabara, a ponte e...

e?!!...

... e que ponto é aquele prateado agredindo os olhos? Que coisa monstruosa é esta que destoa completamente de tudo ao redor? Quem o autor de tamanha megalomania?

Lembrei-me da praça JK e de Niemeyer, do PT de Godofredo, do DEM de César Maia, Do Sérgio e dos Cabrais, das guerras em favor das empreiteiras do Eduardo, do FMI e suas recomendações sobre o superávit primário para os países em desenvolvimento, daquela branquidão que cega como um mar de leite (e agora José? Estamos mais doentes do que pensamos), daquela malquista passagem que serve de estacionamento coberto a carros, estes que merecem lugares mais aconchegantes do que nós, efêmeros mortais. Entristeço-me. Tudo parece estar invertido, sem sentido, mas não. A lógica do irracional é cruel e sepulta no homem suas possibilidades de escolhas e intervenção. Faz incompreensível aquilo que não deve ser questionado, sugere-nos um futuro inelutável, o fim da história e dos conflitos, questiona a universalidade das ideologias e é a mais ideóloga e universalizante de todas. Introjeta-se-nos pela TV. Esta lógica me dói. Não poderia aturar calado um monumento que- querendo ou não- representa uma homenagem a isto, do alto do silêncio do pico da Tijuca, gritei.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Bartolomeu e Zeca

Este conto foi escrito há quase dez anos atrás, por duas pessoas: a minha (parte I) e a do sr. Eduardo d`Avila (parte II) ...
 I
Eram cinco da manhã e aquela festinha já tinha acabado, todos saiam daquele salão com uma alegria fácil, barulhenta e expansiva - corriam o risco de acordar os vizinhos! - provocada pelo regaço na cerveja e o excesso de aperitivos que se manifestavam não só pelo vigorosa disposição dos convivas como pelo cheiro ocre que permeava o ambiente. Naquele salão poucos se conheciam realmente, mas neste momento, é possível dizer, todos se amavam ternamente. Abraços efusivos e demorados acompanhados dum “eu te adoro” ou “como a gente não se conheceu antes” são provas cabais disto que digo. Ali, logo no canto, parado ao lado do congelador das bebidas que ainda sobravam, sobressalentes e relegadas pela massa festiva, estávamos nós, eu e Bartolomeu, que talvez fôssemos os dois únicos amigos verdadeiramente legítimos, ou seja, que já tinham uma amizade antes do recorrente fenômeno sobrescrito do etilismo amoroso. A festa tinha acabado, já disse, mas nós dois não fazíamos qualquer movimento no sentido de irmos embora, ao contrário, em silêncio quase torturante, bebíamos enfeitiçados quantas mais pudéssemos, esta era a nossa sina. A bem dizer, aquela movimentação de todos irem - se somente significava a impossibilidade das duas irmãs conseguirem sucesso em seu plano de escapar de suas "solterices", mesmo que para isso fosse necessário organizar uma festa à fantasia. A mal dizer, significava que, naturalmente todos os canhões estavam apontados para nós. Éramos dois, elas duas. Foi quando o silêncio interrompido com um grunhido que se tomou por “vambora” dada as circunstâncias e a atitude de Bartolomeu de levantar a tampa do congelador e sacar de lá de dentro 3 latinhas para cada um, atitude incomum mesmo se tratando da profunda compulsão do adicto em questão, devidamente escondida nos bolsos das calças, fez-nos movimentarmo-nos. Fôramos a festa fantasiados, eu, no auge da minha criatividade, coloquei uma máscara pequena e feia do Batman tomada de empréstimo urgencial de um amigo cujo entendimento em festas do gênero é mínimo, que junto a uma blusa e capa pretas compunham o meu tosco personagem. Bartolomeu, ao contrário, dedicou-se arduamente na composição de seu figurino: um surfista – pescador. No que isto consistia? Não sei bem, mas posso descrevê-lo para vocês. Uma peruca loira escorrida e desgrenhada se escondia por debaixo de um chapéu de palha, a blusa de xadrez e botão semi-aberta acompanhava uma calça jeans “pescando peixe” e por fim uma sandália de dedo finalizava esta atípica e chamativa figura branca de pele, ainda mais se comparado com a média das fantasias, todas muito precárias, onde se destacava um ser que, envolto a um saco preto, sugeria-nos estar de “lixo”. Voltemos ao fim. Saímos sorrateiramente, eu já não tinha minha capa preta do homem morcego e o meu parceiro do crime também não sabia onde estava aquele chapéu de palha, descompostos, descemos as escadas e ao fim desta empreitada já contávamos com uma cerveja a menos, sorvida num longo hausto que permitiu-nos gozar do sabor ainda temperado de uma cerveja, sabemos bem que nesta hora cerva gelada é sempre um privilégio. Foi quando eu brilhantemente, diga-se de passagem, sugeri ao meu amigo a utilização, nos arrebaldes, de marijuana, obviamente que ele não negou como também não aceitou, já não havia condições nem para um ou outro, mas o fato é que estávamos nós sentados entre dois carros menos uma latinha, já sem grandes preocupações com os riscos que envolve uma operação desta, era um fino, nada mais, de um fumo que pegáramos instantes antes de irmos a festa, num morro que encontrava-se no trajeto casa do Bartolomeu – festa. Agora tomaríamos o sentido contrário, rumo a casa de Bartolomeu, já que eu morador de uma área inóspita em Jacarepaguá não contava com conduções/ condições de ir-me para casa. Estávamos lá fumando, pouco se falava, muito sobre as mulheres da festa, A Sabrina, a Vivian, a Rafa e sua mini- blusa de tigresa, a Ju e sua fantasia de coelhinho, a Branca-de-neve, a chapeuzinho vermelho, a enfermeira, a sadô, já se confundia desejo e realidade, infância e puberdade, pouco importava porque nós estávamos era fumando sós. Olhos pequenos, pensamentos desconexos, partimos em direção ao ponto de ônibus no que saberíamos ser uma ingrata espera. Íamos para Jacarepaguá e dali onde estávamos poucos ônibus nos serviriam. O sol nascente e o cansaço fizeram-nos repousar debaixo daquela estrutura de ferro, um tanto inútil pr'aquilo que se propõe, pois se faz sol todos se bronzeiam, se chove se molham, mas útil para tantas outras coisas como encostar a cabeça e tirar um cochilo. Foi o que meu comparsa fez e quinze minutos após esta fisiológica decisão já era possível ver a baba correndo-lhe no canto da boca, sinal de sono profundo, quando ao longe se aproximava um ônibus que a minha miopia e teimosia em usar óculos não me permitia identificar qual. Desta forma, e ao ter certeza que a condução nos servia, busquei acordar o sonado para que pudéssemos ir. Fui muito delicado, com leves cutucões em seu ombro a maior reação do dorminte era virar a cabeça para o outro lado e continuar seus afazeres oníricos. Estava num dilema, tinha que acordá-lo ao mesmo tempo em que deveria fazer sinal para o autocarro parar. Tentei fazer os dois. Cutuca, dois passos a frente sinal, passos atrás, ei, cutuca, passos a frente, sinal, passos... o ônibus passou, ele não acordou, me emputeci. Tomei a decisão de não deixá-lo dormir mais, não foi por birra, mas eu queria muito poder descansar também, não num ponto de ônibus conforme a opção de outrem, mas no seu devido lugar. Entre a decisão tomada e a execução do ato, há uma grande distância que só pôde ser minimizada com alguns bicos na boca do estômago, para susto daqueles que a esta hora se alojavam no ponto rumo a seus trabalhos e viam um Batman ensandecido espancar um sonâmbulo esdrúxulo. Ele não acordou, se esta palavra for tomada ao pé da letra, mas o seu corpo em movimento possibilitou-nos adentrar num ônibus 269, pagar a passagem e desabar num banco, cada um num, que com o espaço de um lugar vazio ao lado e o sacolejo de uma serra, fez-nos adormecer a ambos, sonhei. Freada brusca, guinada da cabeça, olhos entreabertos, onde estamos? Reconhecimento da área...ops, Bartolomeu! Passamos do ponto!! Já o ônibus ia arrancando, sacudi o ombro do meu anfitrião com uma força descomunal, dei o sinal de parada, Bartolomeu abriu os olhos, eu disse, novamente: “Passamos do ponto”, o ônibus parou, ele balançou a cabeça, não sei se por concordar ou se por Newton, mas eu fui andando em direção a porta de saída, desci a escada e esperei-o , o ônibus fechou a porta, arrancou e foi-se embora. Estava na rua sozinho e com sono, sem ter bem para onde ir e antes que fosse tomado pelo desespero, pus-me a caminhar em direção a casa do meu amigo que, eu já sabia disso, sempre permanecia de portas abertas. Chegando lá encontrei o seu irmão Murilo indo beber água num daqueles interregnos que a sede provoca no sono, sempre benévolo, ele me perguntou onde estava o Bartolomeu, e eu, meio grogue respondi que tinha ficado no ônibus, ele então me olhou com uma santa complacência, desta que só os homens superiores conseguem ter por uma figura degradada por opção própria, e disse-me para eu deitar naquele alvo lençol macio e cheiroso, propício a um sono acumulado, pronto para ser encharcado pelos eflúvios e secreções que um corpo exala, mesmo em baixo metabolismo, quando se vai dormir às 8 da manhã com um sol de verão no rio. Tirei meus sapatos e blusa, a calça não, as meias uma , estiquei-me no colchão e adormeci... Parecia sonhar com uma gritaria, uma balbúrdia se formava no pano de fundo do meu devaneio, interrompido por um copo de água na cara e bicos no tronco, fui despertado pelo surfista pescador, de face rubra e veias estufadas no pescoço que vociferava contra a minha pessoa palavras de ingratidão e desbunde, que esquecia de todo o cuidado que tive com ele, desde a cachoeira babal até o ponto em que saltei onde busquei despertá-lo de sua maldição. Quem mandou dormir como pedra? Mas meus argumentos não bastavam para conter a fúria descomensurada que o excesso de cerveja e umas voltinhas em Jacarepaguá provocava naquela pessoa. Seu irmão, em sua santa paciência, tentava demovê-lo da idéia de me matar e, pouco a pouco, ele foi se acalmando, enquanto me expulsava de sua cama e eu calçava os sapatos, um pé com meia o outro sem, vestindo a blusa do lado inverso, arrebentando aquele elástico vagaba da máscara de Batman, e pondo-me sorrateiramente para fora do quarto, atravessando a sala, indo a cozinha, ouvindo algumas injustas palavras sobre mim que o barulho da rua abafava. Nem fechei a porta, pus-me a andar sob aquele sol carioca, mais sofrível ainda quando se veste preto, que a incompreensão de meu amigo tinha me obrigado a enfrentar.
 II
 Lembro-me de, em fragmentos, ter adentrado o carro que nos conduziria para nossa área. Na realidade, estávamos a caminho da minha casa, pois Zeca não teria condições de viajar naquela manhã. O sono oriundo de psicotrópicos em demasia e acúmulo de horas acordado realmente prevaleceu no momento de saltar do ônibus. Ora!! O que fez então o nobre cidadão amigo? (ainda bem que meus inimigos não precisam dormir lá em casa!!!) Pois o que fez foi digno de um grande vacilão, não é mesmo? Não demoraram dez segundos para ele acompanhar o trajeto do ônibus, já do lado de fora, rumando para seu ponto final em Curicica. Sem marcar toca, pois é malandro como poucos, pôs-se a andar em direção ao conjunto habitacional, calculando de prontidão que portão e porta de minha residência permanecem abertas 24 horas por dia (não liguem, ainda não fomos assaltados). O que o levou de encontro ao meu bondoso irmão que, diga-se de passagem, fez questão de convocá-lo pra se deitar em MINHA cama. O zumbi agradeceu a compreensão do jovem que saía cedo, e desmaiou. Enquanto isto, em Curicica... O calor insuportável daquela manhã me permitiu intuir a gravidade da situação. Onde estou? Onde está o...? Sem conseguir liquidar a questão de pronto, ainda bastante sonolento, desci do veículo e iniciei o reconhecimento geográfico. Eis que percebo-me no fim da linha; aliás, “linha” esta já perdida por nós naquela longínqua festa à fantasia. Diversas pessoas indo trabalhar, funcionários tipicamente uniformizados me olhavam com um olhar ao mesmo tempo repressor e invejoso porque, de fato, me pus a tirar um cochilo numa agradável sombrinha. Recobrei consciência mais segura não sei quanto tempo depois - as unidades de tempo confundiam-se àquela altura – e minutos ou horas adiante, indevida e ligeiramente descansado, ultrapassei os limites da leseira sem precedentes para, mesmo sem dinheiro no bolso, adentrar novamente a mesma condução (269 Curicica-Praça XV). Chegando em casa... Peço perdão aos mais frescos, não acostumados ao uso da violência em casos extremos, (porém sempre com conhecidos, lógico!), o que ocorreu foi um acesso de raiva e, sobretudo, “coisa de bêbado” minha para com Zeca Urubu!! O passeio de volta ao lar me pareceu tranquilo, mas ainda me indagava incessantemente sobre o sumiço do amigo. O que teria acontecido? Será que ele foi para casa? Sabia não ser possível, seu recanto de moradia era realmente num canto, e por re-canto contem mais e mais cantos para lá se chegar, pois seu “sítio” ficava numa área arborizada cujo ar puro nos lembra Lumiar ou Friburgo. Morava numa área mais rural do que a que estamos habituados. Mas não, estive certo que não teria tido condições de seguir viagem ao seu logradouro. Que diabos!! O que aconteceu, afinal? Ao entrar em casa, logo na cozinha, meu parente termina seu café e prepara-se para seus afazeres matutinos quando, ingenuamente, noticia-me “O teu amigo está dormindo aqui em casa”. Mas....como... pera aí, e continuou para mim “Disse que você tava no ônibus e...”, ignorei o resto e fui correndo de encontro ao salafrário. Estava bastante incomodado com o fato de ter dormido num ponto em Curicica, para chegar no meu quarto e vislumbrar, babando em meu travesseiro e envolto em meus lençóis limpos, Zeca Urubu etilicamente desacordado!! Que filho da puta, óbvio, pensei na mesma hora!! Certo de que já estava bastante descansado, resolvi então cobrir-lhe de porrada, com socos e puxões até que saísse imediatamente de cima da cama. Quer dizer que você saltou no ponto da minha casa e, paralisado por encontrar-se só, decidiu cabalmente dormir lá mesmo, sem minha presença? Não passou pela sua cabeça bater no corpo do ônibus, alardar ao retrovisor o motorista? Não!! sem um leve pesar, o calhorda simplesmente ignorou o destino do amigo. Enfim, brutalizado, o safado acordou com cara de espanto e, sem dizer nada, saiu saindo na hora. Não fosse por sua persona intelectualmente pseudo-comunista e libertária, e sabendo que, por ser aberta ao público, minha casa realmente nos incute a romper os padrões citadinos de “privacidade”, ficaria puto com ele um pouco mais do que uns vinte minutos. Ao fim do choque não recordo-me de mais nada a não ser verificar, tristemente, que já havia dormido o bastante para que pudesse descansar mais. No mais, consciente de que nada de grave, mas sim tragicômico, ocorrera naquela noite/manhã, estive certo de que esse episódio continha potencial cômico suficiente para um dia compor páginas em forma de conto. Ao longo dos anos, sequelamente, não mais associava à referida festa esta manhã sonolenta, mas sempre recordávamos a tosca historinha. Pois está agora, finalmente, configurada em um conto a quatro mãos.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Do ciclo da limpeza- ou a dialética do pano de chão.

Ter me tornado “dono da casa” após os trintas tem lá as suas vicissitudes mas tem também as suas benesses. Aquilo que, para alguém que foi criado sob a lógica dos afazeres domésticos desde o mais cedo silabar até a sua chegada a maturidade, tem certamente- com estes afazeres - uma naturalização e naturalidade que não é típico daqueles que, como o meu caso, foram lançados em meio a “imundice” produzida pela síntese do despreparo cultural e social e com a compulsão – completamente descartável e amontoadora – sobre produtos que de nada servem além de nos suscitar uma passividade que nada arruma, “imundice” esta que pode ser denominar o caos que é a nossa própria existência de homem solteiro aos trinta anos.

E isso acarreta, para aqueles que tardiamente se tornaram “donos de casa” uma racionalização sobre os processos a fim de apreendê-los por completo. Descobrir a complexidade que é lavar um simples chão de cozinha, ver complexidade naquilo que parece simples, é algo que só mesmo esta adaptação abrupta permite reparar.

Encerrando as divagações, vamos aos fatos, estes que são a fonte das ilustrações caricatas que são as teorizações. Decerto que me perguntas: mas que mistério tem, lamarão, em lavar a porra de um chão? Que de tão formulado e refinado tem em buscar-se uma vassoura que varre e um pano que limpa, e aplicar-lhes ao chão, com os devidos produtos, cada qual em seu tempo? Nenhum mistério ... e esta seria a resposta useira.

Depende, responderia eu, com cara de professor de história metido a filósofo, que se põe a indagar o óbvio e dele extrair afirmativas que Raul Seixas duvidaria, tamanha a inventividade. E com cara de convicção, reitero, depende sim. Afinal se você for uma leitora, os imperativos sociais já te estimularam a, um milhão de vezes, incutir em si tal processo, que o tens como natural, isso, muito provavelmente, se a história de cada uma em particular dialogar com o modus operandis da sociedade machista. Mas se pelo contrário, tiveste o azar de, como eu, nascer homem e um tanto mais imbecil do que as demais, verás que lavar o chão envolve uma lógica pra lá de aristotélica, pós-hegeliana, diria.

Isso porque falo tão somente de lavar um chão de cozinha, desconsiderando toda a série de atividades que compreende os afazeres domésticos que vão desde fazer a comida, como varrer o teto- sim o teto!- passando por deixar as janelas limpas e as roupas passadas, contando tão e exclusivamente consigo próprio como aliado e- por vezes infortunas- outro tanto de pessoas como adversários nesta empreitada, mormente chamadas de: família.

Mas voltemos pro chão, pois de lá que começamos tudo.

Pois o primeiro fator a ponderar é, qual o tipo de limpeza que se quer no chão da cozinha, se é a limpeza superficial ou a limpeza profunda. Se for a primeira- (sim, opto pela primeira para encurtar já alongado texto), primeiro deve-se varrer o ambiente alvo-inimigo. Posteriormente, preparar um balde com desinfetante e um pano que não esteja sujo, feito isso, aplique o pano no chão, após aplicar o pano úmido, aplique um pano seco a fim de diminuir o tempo de secagem e inviabilizar por um dia uma simples ida a cozinha sem um pé-preto-desperta-neura no meio do piso de cerâmica. Este, aliás, que vc deve torcer pra ser bege, porque se for branco, multiplica todo este esforço por dez. Simples? Não, pois não acabou, terminado todo este processo agora é necessário o caminho dialético da limpeza, ou seja, limpar aquilo que usaste justamente para limpar: daí que se faz necessário lavar o pano (sério, faça na hora, nada mais prático na vida do lar do que arrumar enquanto faz), tanto o seco- que óbvio não está mais seco- quanto o molhado, lavar a pá, desempoeirar a vassoura, limpar o balde e feito tudo isso, vc tem findo o seu simples processo, sem contar que o lixo que varreste deve ser posto no lixo e que este lixo remetido a lixeira. Mas essa técnica superficial tem o inconveniente de não lavar debaixo da geladeira e do fogão com a mesma eficácia. Para tanto seria necessário a técnica do balde com sabão e arrasta eletrodomésticos, acho eu, deixemos esta para outra oportunidade.

Por fim, limpado o que usamos pra limpar, nada mais justo do que aprofundarmos este processo e, ato contínuo, tomarmos um banho com vistas a higienizar o próprio corpo. Mas, estou propenso a crer que o homem que limpa o próprio chão, o faz dando um banho na sua própria alma, pois muito mais eficaz do que mil palavras retóricas, põe em prática uma importante lição de combate ao machismo. Este simples ser pode nem perceber, mas é, por vezes, muito mais feminista do que aqueles que com palavras bonitas floreiam os seus gestos inférteis, pois ocos de autotransformação. Estes, não tomam para si como importante a tarefa de lavarem o seu próprio chão.

sábado, 6 de outubro de 2012

Sobre as eleições

Amanhã (07-10-2012) é dia de eleição e neste sentido gostaria de tornar público algumas preferências políticas, com as escusas de assim intrometer-me em seu momento de divertimento.

Aos que me conhecem mais a fundo (ou há mais tempo) sabem que sempre busquei participar dos movimentos coletivos e sociais que denunciando sejam demandas específicas seja a estrutura socioeconômica produtora de contradições insuperáveis no âmbito do capitalismo: como a produção massiva de riquezas e sua extrema concentração na mão de poucos, o que gera um cenário- no mínimo lastimável- onde contingentes inteiros de populações vivem abaixo das condições de sobrevivência ao passo que minorias dos países centrais detém parcelas vultuosas desta riqueza. Sabem também da minha “opinião radical” no sentido de desacreditar nas propostas que visam amenizar as contradições sociais através de reformas e uma maior distribuição de renda que possibilitaria em um modo de vida mais confortável a todos. Desacredito desta hipótese por um simples motivo. A principal forma de produção do lucro é a exploração sobre o trabalhador e, assim sendo, por mais que curtas épocas históricas possam propiciar reformas que apontem para um Estado de Bem Estar Social é só a taxa média de lucro do capital apontar para o decréscimo que as forças políticas que o representa  (o capital)- em suas diversas formas- irão engrossar o coro que estimula a destruição de direitos sociais em prol do achatamento dos salários (este que compõe o principal fator de custos na produção de mercadorias).

Neste sentido, queria reafirmar um caráter contraditório destas eleições. Tenho plena concordância com a ideia de que não são as eleições burguesas- marcadas pela presença da influência do grande capital organizado que financia candidaturas, os meios de comunicação, que privilegia determinados candidatos em detrimento a outros, as regras eleitorais que beneficiam os partidos oligárquica e historicamente constituídos do Brasil, entre tantas outras coisas para que possamos sair do aposto- não serão estas as eleições que possibilitarão as mudanças necessárias para uma profunda mudança social. Contudo, não creio que estas eleições não cumpram nenhuma função. Grosso modo, podemos dizer que estas eleições podem contribuir para uma modificação da correlação de forças entre a burguesia e os trabalhadores, em favor de ambos os lados e, por isso minha opção de votar- não em meras pessoas- mas em projetos políticos que melhor representem as demandas da classe trabalhadora organizada e rechaçando as propostas dos demais que contribuem para a reafirmação do poder burguês. Mas, principalmente, cabe a afirmativa que esta construção se dá, mais do que nas eleições, no dia – a – dia.

Com tudo isto, quero publicizar o meu voto no PSOL- Partido Socialismo e Liberdade- partido no qual sou militante e busco construir e fortalecer como instrumento construtor do socialismo- como também poderia fazê-lo em favor de outras forças que constroem conosco uma nova ordem social, como o PSTU ou o PCB. Nem sempre estes partidos estarão organizados em seu município por um motivo bastante claro: como são instrumentos da classe trabalhadora que contestam a Ordem social, estes partidos não gozam da simpatia (entenda-se apoio de toda e qualquer sorte) da burguesia. São financiados e mantidos pela classe trabalhadora, trazendo consigo a sorte o azar disso e o maior azar é a crônica falta de recursos, compensados pela militância política dos que- sonhando acordados- organizam-se e agem.

Estes partidos estão na luta a fim de construir (1) condições melhores de vida para a classe trabalhadora, buscando dar freio ao ímpeto voraz do capital, ao mesmo tempo que (2) buscam organizar o movimento da classe trabalhadora e, com isto, aprofundar um projeto político que viabilize a tão almejada – por nós certamente e ao menos - transformação socialista.

Para finalizar, queria dizer que nestas eleições municipais:

No Rio de Janeiro eu apoio e construo a candidatura de Marcelo Freixo – 50 e, para vereador, Renato Cinco 50555.

Em Niterói, apoio e construo a candidatura de Flávio Serafini- 50 e, para vereador, Paulo Eduardo Gomes, o PEG, 50001.

Em São Gonçalo, indico o voto no Josemar- 50 e para vereador, voto em legenda, 50.

Em Itaboraí, onde trabalho, milito e construí muitos amigos, indico a candidatura de Lourdes Monteiro 50, para prefeita, e Ronei Carvalho 50500, para vereador.

Pois, para estas pessoas, como para mim, a luta é diária!

terça-feira, 17 de julho de 2012

Mal vá do jeito (que chegou).

Mal

Mal de mim

Mal de mais

Mal de menos

Mal dá de muito

Mal dá na cara

Mal dá definitivamente

Mal dá desespero

maldade mata

 

Para tanto

Bondade não é suficiente

Há que se ser solidário

E igualdade entre a gente

Não mais solitário

Ter-se a assunção inteligente

De que só, sou um a menos.

 

Radical

Só o nosso individualismo

Que nos torna tão igual

Neste imenso pluralismo

De corpos vazios de conteúdo

E se com isso tudo, fico mudo

Isso me faz radicalmente mal

 

Mal demais

Mal de mim

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Não somos irmãos

 

Ao Dromedário que se diz irmão

 

Cal na alma calma

Inquisidora da alma inquieta

Soletra teu sono, nós não somos

Tão pouco tampa o vazio.

 

Disso merecemos menos

Somos sendo, sem dó

Afirmamos e amamos, tão só

 

Larga a minha mão, viu

Sou frágil e senil

Não mereço o teu carinho

Não sou sutil, não sou sutil

 

E do meu amor eu faço um ninho

E no meu egoísmo , eu sonho

Faço do amor besta, música

E com tua inveja, eu proponho

Que seja bastante feliz

Em nossos desejos de meretriz

esta será tua grande conquista

na ode do teu amor individualista

descartável e de imediatez

há um limite no teu sentir burguês.