terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Réplica

Carlos Alberto Ferreira Lamarão

 

Marco Vinícius nasceu na noite de uma sexta-feira, dia 29 de janeiro de 1981, por volta das 23:30 h. no Hospital Santa Lúcia, na Rua Voluntários da Pátria, em Botafogo – Rio de Janeiro. Naquela época eu era empregado do Banco do Brasil e teria direito a cinco dias consecutivos de folga no trabalho, a partir da data do nascimento, para acompanhar o parto, providenciar seu registro e etc. Mas, como ele nasceu em uma sexta-feira à noite, aquele dia e mais o sábado e o domingo subsequentes, foram contados como “folgas”...

Chegou o rebento esperado!

E chegou me sacaneando

pois que, para nascer,

tinha a semana inteira,

mas nasceu na noite de uma sexta-feira

três dias de folga me tirando,

dos cinco que eu poderia ter.

Sua mãe começou a sentir “as dores” por volta das três horas da tarde, horário em que fui avisado e deixei o trabalho para acompanhá-la. Chegamos ao hospital, por orientação do médico, por volta das oito da noite. Somente então ela começou a ser assistida diretamente pelo seu médico. Ela pretendia proceder um parto normal, a exemplo do que acontecera com sua irmã, Flávia Rachel. Entretanto, após os primeiros exames preparatórios para o parto, a equipe médica constatou que o Marco encontrava-se “virado” no útero. Além disso, havia a possibilidade de que ele estivesse com o cordão umbilical enrolado no pescoço. O quadro descartava o parto normal e apontava para uma cesariana. Nunca fiquei totalmente convencido dessa “constatação”. Ainda hoje penso que a equipe médica arranjou um jeitinho de aumentar seus honorários. Mas, como não tínhamos como evitar, acabamos aceitando a cesariana.

Para nascer, fez-se esperado,

dando-nos doses de emoção

pois que, ao nascer tava enrolado

agarrado num tal cordão,

não bastasse estar virado,

no útero mal posicionado...

Já nasceu pedindo atenção!

O obstetra convidou-me para assistir ao parto. Em um primeiro momento, tive dúvidas se conseguiria pois nunca fui muito afeito a sangue e coisas e tais, além de ter total aversão ao cheiro do éter.

Quando do nascimento da Flávia, três anos antes, não me deixariam mesmo assistir ao parto porque contrariava as regras impostas pelas freiras que administravam o Hospital Santa Maria – pertencente à Benemérita Beneficiência Portuguesa, na Rua Santo Amaro, na Glória, também no Rio de Janeiro. Aliás, o “pudor” excessivo das freiras impediam, até, a minha presença no apartamento enquanto faziam curativos ou banhavam a mãe da Flávia. Tal hipótese jamais me ocorrera.

Era, portanto, uma oportunidade única e resolvi arriscar. Não filmei ou fotografei o parto, pois não estava preparado para fazê-lo. Mas ele está definitivamente gravado em minha memória. Enfim, correu tudo bem e foi uma das experiências mais interessantes pelas quais já passei.

Com convite não esperado

veio ao mundo o rebento

pois que a tudo assisti

tal qual um sonho, em ritmo lento

como se eu não estivesse ali

tudo acompanhando, tudo vendo...

Uma experiência e tanto, eu vivi.

Sua infância correu saudável entre as estrepolias do moleque. Tinha algumas características interessantes, não aprendidas conosco. Por exemplo, desde pequeno pedia à mãe um cafezinho após as refeições, hábito que não tínhamos em casa. Outra característica sua que me chamava a atenção era o fato de gostar de ler o jornal comigo. Só que ele se interessava, mesmo na tenra idade, pela página de política enquanto eu lia a parte de esportes.

Uma passagem muito interessante ficou em minha memória: Certa vez fui chamado à escola em que ele estudava. A responsável reclamava que o Marco estava vendendo bombons aos colegas por um preço menor do que a cantina da escola oferecia, “concorrendo” com o estabelecimento. Marco pegava o dinheiro que recebia para a sua merenda, comprava uma caixa de bombons no supermercado e revendia a unidade por um preço inferior ao da cantina, multiplicando seu dinheiro. Fiquei entusiasmado com a iniciativa do moleque. Comentei com a responsável que tinha duas coisas a dizer sobre o assunto. Primeiro, que se o Marco – uma criança – conseguia vender por preço menor, a cantina, provavelmente, estava cobrando muito caro pelos bombons. Segundo, que tal iniciativa não deveria ser criticada e sim enaltecida.

Cresceu o rebento, como esperado!

E cresceu me encantando

com seu jeitinho de ser

pois que, quando, jornal na mão, tomávamos sol,

discutia política enquanto eu lia futebol

muitas vezes me ensinando

o que estava a acontecer.

Tínhamos um acordo em casa: tendo em vista a fragilidade que, já naquela época, as escolas públicas de ensino fundamental ofereciam, Flávia e Marco teriam, no primário, o melhor ensino que eu pudesse pagar. Eles deveriam prepararem-se para cursarem o ginásio em escolas públicas que oferecessem ensino de qualidade pois eu não tinha certeza se conseguiria pagar-lhes escolas de bom nível. Até então, a escola nunca havia sido um problema para nenhum dos dois. Ambos eram excelentes alunos.

Flávia cumpriu o acordo plenamente. Saiu do primário para o Colégio Pedro II, onde cursou o ginásio e o científico. De lá, cursou a UERJ onde formou-se em Biologia. Atualmente é Mestre e Doutora.

Marco, nem tanto. Abandonou o concurso para o Colégio Militar, claudicou no do Colégio de Aplicação e acabou indo estudar no Pedro II, de onde foi convidado a retirar-se por mal comportamento e excesso de faltas. Passou para a Escola Federal de Química onde envolveu-se mais na política estudantil do que com os estudos e acabou tendo seu diploma do segundo grau obtido através de um curso supletivo. Naquela época, cheguei a temer por seu futuro.

Aos trancos e barrancos, resolveu cursar uma faculdade. Escolheu História e Filosofia. Na primeira, foi aprovado na UFF e na segunda, na UERJ. Escolheu a História, por fim. Apreensivo, cheguei a perguntar-lhe do que viveria, como se sustentaria formando-se em História. Sabia das dificuldades que a área apresentava e da pouca valorização que o mercado lhe dava. Ele, entretanto, insistiu e formou-se. Atualmente é Mestre e está doutorando.

Tornou-se rapaz, o rebento... Era esperado!

E continuou me surpreendendo

no curso de sua juventude

pois que, numa decisão notória,

trocou a química pela história

e, mostrando-me atitude,

fez da história seu sustento.

Hoje, está completando trinta e três anos de idade – “a idade de Cristo”. Homem feito, tem sua casa, seu trabalho, suas convicções, seus sonhos, seus projetos, suas realizações... Enfim, sua vida! Por sorte, entendeu meus conselhos e não os seguiu. Fez o seu próprio caminho!

E eu fico feliz porque acredito que ele esteja realizando-se. Percebo nele, tanto quanto em Flávia, um brilho intenso no olhar quando comentam seus trabalhos.

Hoje, é homem feito, o rebento. Espero que realizado!

E com ele venho aprendendo

as curvas que a vida apresenta

pois que, apesar dos meus conselhos,

descartou este espelho

e venceu suas próprias contendas...

E, tomara, continue vencendo.

Parabéns Marco!!!

Se em uma época “rayconiffizava”

suas manhãs de domingo

“besamemuchando” seus ouvidos,

e entorpecendo seus sentidos,

só queria externar o que me passava:

a alegria de tê-los comigo.

Rio de Janeiro (RJ), 29 de janeiro de 2014.

Percebo que esse jeito irreverente,

um traço da minha personalidade

que eu gostaria de deixar esquecido

mas que ressurge, intermitente,

deixa vocês constrangidos

na presença de amigos

e, muitas vezes, até a mim surpreende.

Apesar do avanço da idade,

tento controlá-lo, mas não consigo –

ele escapole contra minha vontade –

e, do nada,

quase sem eu perceber

lá se foi um escárnio, um deboche, uma piada.

Provavelmente, esse meu jeito

já me trouxe inimizades

mas sei que não sou perfeito

e nunca tentei ser.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Ode ao amor!

Meu coração uma vez me disse, e parecia que profetizava: 
Ama profundamente, que o mundo se tornará menos doente 
Irracionalmente sábio, desistiria se me visse, pois 
Amei com dor, fui não correspondido, tive amor demente, amor perdido, mas
Resisti na busca por amar, e nisto errei muito, pois nunca tinha ouvido falar, que 
Amar não faz o menor sentido, nem deve fazer, só se basta em bem-querer. 

Leviano seria meu coração caso
Eu não tivesse encontrado você, e 
Hoje posso ter a felicidade de aprender a largos passos 
Enquanto miro a sorte de ter tua beleza (por mim contemplada), 
Reencontrando na vida um grande motivo: ter a ti como mulher amada.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

15 de outubro de 2013

 

 

Hoje tenho as ruas que pulsam em minhas veias
Saí de mim e das suas, rompi as minhas teias
Hoje estive na tua ,na rua, na lua, na luta.
E tua névoa, entre gás lacrimogêneo
Apimentou minha alma, atiçou meu gênio.

 

Solo no asfalto e brado no peito
Percorremos a luta na rua, seu primaz eito.
Máscaras sobre o rosto, embora alma despida
Lampejos de bomba desatam nossa corrida
eu tento, eu enfrento, sigo em frente, num vai-e-vem
Sou eu e você, somos outros, somos todos e somos ninguem.


assim nos querem, pouco, torto, morto também
e tanto nos impelem, invés de mestres, máquinas!
Não sois humanos, são pobres, e podres.
E lampejam as bombas, os sonhos, os ardores,
Laureamento governamental no dia dos professores!


E nesta bamba linha tênue, os "diretores" tremem,
Pois mesmo que com tudo isso, e repetida as esquetes,
Ganharam vida e consciência: a rebeldia das “marionetes”!

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Sobre o "quebra-quebra"


Embora não seja o ponto mais central do embate ideológico que ora se manifesta, penso ser momento oportuno para disputarmos uma ideia importante, a de que a tática que utiliza "a violência" para criticar o Estado é um erro do movimento social. Esta ideia, propugnada pela grande mídia para deslegitimar o movimento, esquece-se que quem detém o monopólio da violência é o Estado e que este serve, como fim último e deveras mediado, como instrumento de dominação de uma classe social sobre outras classes e frações. Daí que quem é violenta por natureza é a Policia, em especial a policia brasileira, que ao longo da nossa República viveu sob longos anos em regimes declaradamente autoritários e é douta em técnicas de torturas variadas. Aos movimentos sociais cabem sim o direito à defesa, em especial a direitos fundamentais, celebrados incluso pela grande burguesia, como o direito de ir e vir, o direito de expressão e, mesmo, o direito à vida.
Outro ponto a tratar é o fato de que o "Patrimônio Pùblico" depredado, é nada mais, do que alvos selecionados que representam a lógica atroz do Estado voltado a reprodução do capital financeiro na sua forma mais agressiva. A esculhambação de Bancos, lixeiras, ALERJ, Mc donald´s, ônibus, metrô quer expressar- de forma ríspida- a negação de práticas onde os interesses públicos são confundidos com o interesse dos poderosos. No Rio de Janeiro, em especial, o capital financeiro sorri e tem na dupla Eduardo Paes/Cabral excelentes artífices da execução dos interesses dos diversos segmentos do capitalismo, característica singular dos beneficiários é serem eles, todos, grandes monopólios. Ou seja, o imposto pago pelo trabalhador tem sido escancaradamente utilizado para engordar a conta de Deltas, Odebretch, Eike´s e afins, através de obras, reformas, isenções, contratos, etc. Esta sim, verdadeira depredação do patrimônio publico, sem aspas.
Para não me alongar já me alongando. A prática do "quebra-quebra" sempre foi largamente utilizada na história do povo carioca, a Revolta da Vacina (1904), a Revolta das Barcas (1959), as diversas revoltas contra os ônibus são claras evidências disso e, portanto, entendido como ato reativo na prática política, tem sim a sua validade. Não sou eu quem digo, mas sim a história. A questão do uso da violência pelos movimentos dissidentes não pode ser uma discussão a priori, senão não poderíamos ter assistido nenhuma das grandes revoluções axiais à nossa civilização. Contudo, querem-nos fazer esquecer esta dimensão.
Afinal, no mundo dos Monopólios, não podemos esquecer do monopólio da imprensa, que chama de "liberdade de imprensa" o direito de expressar a "visão de mundo" afinada aos interesses deles mesmo, os Monopólios, nada mais óbvio. Daí que estas ações, ao menos, conseguem romper - positivamente ou negativamente - o silêncio imposto. O debate está posto, esta foi a primeira e grande vitória, agora é crescer, pois que os argumentos são óbvios e óbvia é a fratura imposta em nossa cidade, estado e país.
Sem luta, sem cura.

 

Bonda virado – Revolta da Vacina (1904)

 

A revolta das barcas (1959)

Revolta contra o aumento dos ônibus 1987

Sem título

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Atentado ao pudor: o contracheque do professor

Da grande vantagem de se ganhar mal (ou das verdades que a pequena burguesia tem mais medo):

(1) a primeira grande e incontestavel vantagem de se ganhar mal é o fato de que, no mês de abril, vc não precisa pagar o imposto de renda e se lembrar - de forma violenta - o quanto você é roubado pelo Estado.
(2) a segunda grande vantagem é que, quando você falta ao trabalho, você não perde quase nada; é quase um brinde ou feriado;
(3) você ganha tão mal que qualquer troco a mais errado é praticamente um novo 13º;
(4) você pode olhar com cara de gozo para os seus amigos que ganham bem e pensar, soberbo: "traidores da causa".
(5) Na hora de pagar a conta, a família te trata como café-com-leite e você acaba não desenbolsando muito, graças ao “ratata” da solidariedade.
(6) "viver com dívidas é viver com liberdade" é teu lema.
(7) qualquer aumento que te derem é significativo embora, na real, não seja nada ...
(8) Pra quê ganhar bem quando se pode comprar em Madureira?
(9) De tão determinado na pobreza, montado na miséria, o pessoal já te considera o "sem lenço, sem documento" dos tempos modernos e, por conta disso, nutre certa admiração por vc ...
(10) descobre que ganhar mal não é problema, problema é o carnê não ser aceito na "Ricardo Eletro", afinal, pra que serve a fortuna de Bill Gates se já inventaram o crediário?
o resto é luxúria!

Convite Público- Defesa de Mestrado

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quarta-feira, 13 de março de 2013

O papo do papa.


Foto: Bruno Gomes.
O papa é argentino, disse ao sopé do ouvido de tupã, a triste Jaci. Tupã, aboborado de raiva, fez-se céu e, em meio a lágrimas que caiam como chuva, buscou aconchego em Pacha Mama. Estava ela certa, pensou: 500 anos de um tempo que retorna ao ponto, corado a genocídio, catequese e sequestro de bebês, agora se completarão. Avistou de longe, Xangô que se encolhia, enquanto Ewá dançava uma dança de lamento, parecia dizer que não seria facilmente vencida. Fechou os olhos e, em instantes, a noite surgiu.